Sabrina Noivas 53 - The Groom Maker
 
Tudo que ela queria era encontrar um grande amor!
Rae Browning possua a capacidade de tranformar todos os solteiros que conhecia em noivos potenciais. Porm, cada um dos conquistadores- num incrvel total de doze- casou-se com outra garota, fazendo dela uma adorvel, ainda que solitria, dama de honra. Imune ao matrimnio, Trent Colton fez subir as apostas, ao concordar em dividir sua casa com Rae. Mas jamais esperava sentir-se to "domesticado" em relao  dama de honra preferida da cidade. Em pouco tempo, todos j apostavam que ele finalmente transformaria Rae numa noiva

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1995
Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida

Srie Make-Believe Marriage
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Grace, Carol	Almost a Husband

	Sep-1995

Laurel, Lisa Kaye	The Groom Maker
Sabrina Noivas 053 - 
Ela Disse Sim
	Sep-1995

Lindsey, Terri	Dream Bride

	Sep-1995

Palmer, Diana	Coltrain's Proposal

	Sep-1995

Peters, Anne	Green Card Wife

	Sep-1995


 










CAPITULO I

Rachel Browning abriu as torneiras e comeou  se despir, ouvindo os rudos e estertores do antigo encanamento. Assim que a gua quente comeou a jorrar, ela entrou no chuveiro. O casamento comearia em vinte minutos. Ficaria pronta a tempo, ou quase, a no ser que o noivo decidisse aparecer para v-la antes da cerimnia.
Com mais empolgao do que afinao, comeou a cantarolar a Marcha Nupcial sob o chuveiro, enquanto ensaboava-se. De repente, uma voz masculina interrompeu ogran finale da msica:
	O que est acontecendo aqui?
Com o susto, Rae quase perdeu o equilbrio na velha e escorregadia banheira. Instintivamente agarrou a cortina do chuveiro e enrolou-a em torno do corpo, vendo os fios de gua escorrerem para o gasto piso de linleo.
S ento deu-se conta de que a voz viera do lado de fora da janela do banheiro, que ficava inconvenientemente localizada bem atrs da parede do chuveiro. A vem o noivo, pensou, com um suspiro. Ningum mais teria coragem de se aproximar daquela janela. Ele costumava zombar da maneira como ela cantava, alm de estar sempre chegando nas horas mais imprprias. Soltou a cortina de plstico, calculando mentalmente quantos minutos se atrasaria para o casamento, agora que teria de enxugar o cho do banheiro.
	O que sempre acontece num chuveiro  respondeu, ento.  Onde voc esteve? Esperei o mximo que pude. Agora  tarde demais, mesmo para uma rapidinha.
Houve uma longa pausa.
	Isso significa que voc normalmente tem tempo para uma "rapidinha", quando os homens a chamam pela janela do banheiro?  a voz grave continuou, abafada pelo rudo da gua.
Uma estranha e sbita desconfiana fez com que um arrepio percorresse a espinha de Rae.
 Pare com isso, Jim. Voc no tem tempo de ficar a, com brincadeiras.  melhor ir direto para a igreja.
Mais uma pausa. Rae passou a enxaguar-se depressa, agora, pois algo parecia muito estranho, ali. E estar nua, embaixo do chuveiro, no era uma posio favorvel. Talvez tivesse se apressado demais em presumir que era Jim quem estava do lado de fora.
E no era mesmo. A voz tornou a soar atravs da janela, grave e perturbadora.
	No sou Jim. Quem  voc?
	Quem  voc?  Rae retrucou, sentindo a pele arrepiar-se, a despeito da gua quente. 
	Acontece que sou o dono desta casa. E estou mais do que curioso para saber o que uma mulher desconhecida est fazendo no meu banheiro.
Rae soltou a respirao, aliviada. No era nenhum criminoso, nem um psicopata. Apenas o dono da casa.
Mas, espere um pouco... Aquela casa, onde morava e tinha seu salo de beleza, pertencia ao filho de sua amiga Maureen Peterson, que era um alto executivo num hotel em Tquio. Ele havia herdado a casa anos atrs e a deixara aos cuidados da me, que montara uma butique de presentes num dos cmodos. O que ele estaria fazendo ali, agora?
Rae mordeu o lbio, enquanto enxaguava o xampu dos cabelos, tentando lembrar o nome de um homem que jamais conhecera. Ento, lembrou que ele tinha o mesmo nome do pai, o primeiro marido de Maureen.
	Thomas?  arriscou.
	Parece que voc sabe o meu nome, mas eu ainda no sei o seu.
Ela continuava com o demorado processo de retirar o xampu dos longos e espessos cabelos sob a escassa gua que escorria do chuveiro.
	Eu sou Rae  respondeu, como se isso explicasse tudo.
No houve nenhum comentrio. Aps alguns instantes, ela tornou a falar:
	Voc sabe quem eu sou... no sabe?
	No. Mas estou interessado... muito interessado mesmo, em saber. E voc tambm pode aproveitar para me dizer porque minha chave no entra mais na fechadura, e o que significa aquela placa na porta da frente.
Ser que Maureen nunca dissera nada a respeito dela ao filho?, Rae pensou. No, isto seria muito improvvel. Seus instintos lhe alertavam para lidar com a situao desagradvel da forma mais cuidadosa possvel, apesar de no gostar da intimidade de estar conversando com um estranho enquanto tomava banho, a apenas alguns centmetros de onde ele estava. A janela baixa, no primeiro andar, com a cortina impermevel e opaca era tudo o que havia entre eles.
Respondeu, resoluta:
	A placa na porta  do meu salo de beleza, Styles. Sua me mandou trocar a fechadura quando a maaneta quebrou, no ano passado.  Fez uma pausa, retirando a gua do rosto.
 E eu estou aqui porque fiz um acordo com sua me. Tinha a impresso de que voc estava ciente de tudo. Talvez seja melhor falar com ela. Agora, se me der licena, gostaria de terminar meu banho em paz.
Mesmo em meio ao rangido do encanamento, ela pde perceber o tom impaciente na voz dele.
	Pois fique  vontade. S espero que seja o ltimo que toma em minha casa.
Aps alguns minutos de silncio, Rae espiou por uma fresta da cortina e viu o quintal vazio. No havia nem sinal do homem que aparecera misteriosamente e que, com apenas algumas palavras, impusera uma ameaa  sua felicidade.
Rae ainda estava a um quarteiro de distncia da igreja quando ouviu o alegre repicar dos sinos preenchendo o agradvel ar de maio, e anunciando o incio da cerimnia de casamento. Estava atrasada. Apressando os passos na calada vazia, avistou um homem saindo do estacionamento da igreja e caminhar em sua direo. Rezou baixinho para que no fosse Thomas. Tinha certeza de que iria encontr-lo, mas preferia que fosse na presena de Maureen.
Parou diante da escadaria da igreja, com a ateno voltada para o homem que se aproximava. Nunca o vira antes, e nos trs anos em que morava em Emerson, passara a conhecer todos os seus habitantes. Deve ser algum convidado de fora, pensou. De frente para o sol, Rae no conseguia ver-lhe o rosto, mas percebeu que era alto, elegante, e os largos passos que dava complementavam a estrutura atltica, firme. Usava um blazer com graa casual, e os cabelos louros reluziam sob a luz do sol, sendo erguidos levemente pelo vento. Rae, que tocava os cabelos das pessoas diariamente, em seu trabalho, ficou surpresa ao descobrir que seus dedos ansiavam por sentir a rica textura dos cabelos dele.
A poucos metros de onde ela estava, o homem diminuiu os passos, e voltando rapidamente  realidade, Rae deu-se conta de que, alm de atrasada para o casamento, estava tambm interessada naquele homem. Um homem atraente, era verdade, mas completamente estranho. Virou-se na direo da igreja e ele alcanou-a. A voz era profunda e agradvel.
	Com licena  disse.  Voc vai ao casamento?
Ela parou.
	Vou, sim  respondeu.
Meu nome  Trent Colton. Sou amigo do noivo.
No era Thomas, o dono da casa. Rae exalou um suspiro de alvio, enquanto estendia-lhe a mo.
	Muito prazer. Sou Rachel Browning, amiga dos dois.
	Est sozinha?  ele indagou.
Rae olhou na direo da calada, totalmente vazia exceto por eles.
E o que parece  disse.
Ele sorriu.
Eu queria saber se voc vai se encontrar com algum l dentro da igreja. E casada, ou algo assim?
Ela retribuiu o sorriso, com uma pontinha de desolao.
Havia "algo assim", mas ele cancelou os planos para hoje.
O Homem franziu a testa.
Espero que tenha havido uma boa desculpa para ele deix-la comparecer a um casamento sozinha.
Quase imperceptivelmente, o sorriso dela alargou-se. 
A melhor das desculpas  disse.  Ele  o noivo.
Trent pareceu surpreso, mas no fez qualquer comentrio. Em vez disto, ofereceu-lhe o brao.
Posso lhe fazer companhia?  perguntou.
Rae estava encantada.
	Sim, obrigada  disse, pousando a mo no brao forte e musculoso.  E, por favor, no pense mal de Jim, est bem? Ele fez a escolha certa.
	Jim tem muito o que explicar  Trent falou, sorrindo enquanto subiam os degraus da igreja.  Certa vez, ele e eu juramos que jamais seramos amarrados pelos laos do matrimnio.
Rae lanou-lhe um rpido olhar.
Pois me parece que a maioria dos homens vive dizendo que quer resistir ao casamento, mas todos acabam felizes por caminhar at o altar ao lado da mulher certa.
Ele soltou uma risada, amarga.
Ento no sou como a maioria dos homens.
No topo da escadaria, Rae virou-se e observou o rosto dele. Sob as sobrancelhas da mesma cor dos cabelos, os olhos castanhos claros deviam ter um brilho de divertimento, indicando que o que dissera era apenas brincadeira. Entretanto, eles estavam srios, profundos, inescrutveis. Por intuio, Rae percebeu que ele tinha razo: no era igual a nenhum homem a quem ela j conhecera, em toda sua vida.
Trent retribuiu o olhar de apreciao.
	Voc precisa entender que tenho meus motivos  disse, num tom gentil porm firme.  Quando se trata de caminhar at o altar, sou um objeto imvel.
Devagar, os cantos dos lbios de Rae moveram-se num sorriso, que formava covinhas nas faces.
	 mesmo? Que interessante... Sabe, as pessoas aqui parecem pensar que eu sou uma fora irresistvel.
Ela entrou na igreja e, embora a contragosto, ele viu-se seguindo-a irresistivelmente na direo do altar, ao som dos acordes do rgo.
Rae adorava casamentos, mas estava difcil concentrar-se naquele. O banco onde sentara, nos fundos da igreja, parecia estar lotado, embora ela e Trent fossem os nicos ocupantes.
Toda vez que ele se mexia no duro assento de madeira, ela sentia as vibraes em seu ntimo. Quando ele segurou o livro de hinos para que ambos acompanhassem, a sensao do brao dele contra o seu tornou quase impossvel ler as palavras. Encontrar um estranho atraente num casamento era a fantasia de todas as mulheres. E levou algum tempo para Rae acostumar-se com a ideia de que era o que acontecia com ela.
Alm disso, o sbito aparecimento do filho de Maureen Pe-terson, Thomas, e a surpresa que ele demonstrara ao saber que ela estava ocupando a casa, no lhe saam da mente. Precisava encontrar Maureen e falar com ela o mais breve possvel. Logo depois da cerimnia.
Ainda assim, as palavras de amor que flutuavam no altar penetraram em sua confuso mental e, como sempre acontecia, provocaram-lhe lgrimas. Quando comeou a procurar um leno de papel na bolsa, Trent Colton passou-lhe o leno dele e pressionou-lhe a mo, desviando os olhos em seguida, pensativo. Ele possua os modos gentis e sofisticados de um homem cosmopolita e, por um instante, Rae imaginou o que algum que jurara nunca se casar pen.saria de uma garota que chora em casamentos.
Encerrada a cerimnia, os noivos e padrinhos passaram em fila diante deles no corredor central, saindo da igreja. Os convidados comearam a se retirar e, na pequena multido que se formou, Rae tentou avistar Maureen. Logo viu os cabelos ruivos da amiga, levemente salpicados de grisalho, e acenou-lhe. Impaciente, esperou que a longa e lenta fila se adiantasse e Maureen chegasse at onde ela estava.
 Maureen, preciso falar com voc  Rae foi dizendo, e parou. A amiga sequer olhava para ela, pois fitava o homem ao seu lado, com um largo sorriso iluminando o rosto. No instante seguinte, atirou-se nos braos dele.
Rae ficou atnita, de incio, imaginando como Maureen conheceria aquele estranho. Depois, lembrou-se que Trent Colton dissera ser amigo do noivo. Talvez tivesse morado em Emerson tempos atrs.
Maureen desfez o abrao e olhou para ele.
	Temos tanto o que conversar!  exclamou, a voz trmula de emoo.
	Isso nem  preciso dizer  ele retrucou, sorrindo com afeio.
Maureen voltou-se para Rae.
	Querida, gostaria de lhe apresentar o meu filho, mas parece que vocs j se conheceram.
	Seu filho? Bem, de certa forma...  disse Rae, pensando na voz de Thomas interrompendo seu banho.  Mas acredite, no houve nenhuma apresentao formal, foi mais uma... surpresa. Maureen, ns precisamos conversar.
	Apresentao formal? Rae, voc  a pessoa mais amigvel que conheo! Desde quando precisa ser apresentada formalmente a algum que esteve sentado ao seu lado por mais de uma hora?  Enquanto falava, Maureen a puxava pela mo, tornando a entrar na fila.
Rae ergueu os olhos para o homem ao seu lado. Sabia o significado da palavra arrasada mas, at aquele momento, nunca havia experimentado tal sensao.
	Voc no... no pode ser Thomas Peters  gaguejou.  Disse que seu nome era Trent Colton!		Na verdade,  Thomas Trent Colton Jr.  ele disse, calmamente.  O sobrenome da minha me tambm era Colton, antes de ela se casar com Hal Peters, poucos anos atrs.
 claro, Rae pensou. Como fora idiota em no se lembrar que Maureen havia se casado novamente.
	Todos na cidade me chamam de Trent  ele prosseguiu.  E, ao que parece, no sou o nico a ter um apelido, no , Rachel? Ou ser Rae?
As pessoas que esperavam na fila comearam a observ-los com curiosidade. E, no pela primeira vez naquela tarde, Trent teve de se esforar para manter a costumeira boa-educao.
Rae respirou fundo e falou, num tom mais baixo:
	Estou tendo um pouco de dificuldade em reconhec-lo como o homem que interrompeu meu banho.
	E eu estou achando difcil imaginar por que voc esperava ter uma "rapidinha" com o noivo, meia hora antes de ele se casar com outra  Trent disparou.
Rae arregalou os olhos, chocada.
Voc no est pensando que...  Calou-se por um instante, atnita.  Eu ia fazer um corte rpido no cabelo de Jim! Meu Deus!
	Ah,  claro. Como pude me esquecer? Voc  a mulher que transformou minha linda casa de campo num salo de beleza.
Trent fez um esforo concentrado para conter a irritao. Entretanto, o fato de no saber que Rae estava ocupando sua casa parecia ser uma surpresa para ela, tanto quanto fora para ele. Precisava ter uma conversa muito sria com sua me, e descobrir o que estava havendo.
Por outro lado, e apesar de tudo isso, quando a encontrara na escadaria da igreja a achara extremamente cativante. E ainda achava.
Finalmente chegaram na fila dos cumprimentos. Rae parecia um pouco zonza, portanto Trent enlaou-lhe os ombros e a fez entrar de volta na fila, seguindo-a at sarem da igreja.
Foram os ltimos a dar os cumprimentos aos noivos. Jim, com uma barba castanha que o fazia parecer um urso, no se contentou com um beijo de Rae e segurou-a nos braos, erguendo-a do cho e fazendo um giro. As pessoas em volta aplaudiram.
	Nada disso teria acontecido se no fosse por voc  Trent ouviu Jim dizendo, ao deixar Rae novamente no cho.
Rae enviou-lhe um sorriso caloroso, dizendo:
	Ora,  claro que teria acontecido, Jim Bruneski. Voc e Lynna foram feitos um para o outro. Estou to contente pela felicidade de vocs!  Afastou-se para beijar a noiva.
Trent deu um passo na direo de Jim. Os dois homens olharam-se em silncio por alguns segundos. Ento, de repente, trocaram um abrao apertado.
	Que bom que pde vir, amigo  Jim falou, quando se separaram.
Trent colocou a mo em concha ao ouvido.
	O que ser que estou ouvindo? Talvez seja o som do inferno congelando. Pelo menos foi o que voc disse que aconteceria, se algum dia se casasse.
Jim encolheu os ombros, sorrindo. Depois, fez um gesto na direo de Rae.
	Vocs esto juntos?  perguntou.
Trent pensou por um instante.
	E, acho que sim.
O sorriso de Jim alargou-se.
	Ah, ento aposto que voc ser o prximo  disse, com uma piscadela.
	Sobre o que est falando?
Mas Jim j se afastava, acompanhando a noiva para a sesso de fotos. Trent decidiu deixar o esclarecimento para mais tarde. No momento, era mais importante falar com sua me.
Maureen o esperava no final da fila de cumprimentos e, assim que ele se aproximou, tornou a abra-lo. Depois, Trent segurou-a pelos braos, olhando-a.
	E timo v-la novamente, mame - ele disse, com um largo sorriso.
A aparncia dela era ainda melhor do que se lembrava, e o motivo era bvio. No estava apenas feliz... estava radiante, iluminada de dentro para fora. Trent no vira a me assim com muita frequncia, em sua infncia. Hal, o segundo marido, certamente a tratava muito melhor do que o pai de Trent fizera.
	Voc viu meu recado?  ela perguntou.
Trent assentiu. Depois que deixara Rae continuar com o banho em sua casa, ele fora para a casa da me. Pelo menos aquela chave ainda servia, pensou, com ironia. Juntamente com o recado dizendo que o encontraria no casamento, Maureen deixara uma nova chave para a casa dele.
	Foi uma surpresa to grande receber seu recado, esta manh, de que voc estaria aqui para o" casamento!  ela continuou falando.  Quanto tempo pretende ficar?
	Uns trs meses.
O rosto de Maureen iluminou-se.
	Tudo isso! Mas  maravilhoso! Nem mesmo quando morava em Boston voc aparecia para ficar tanto tempo, o que dir agora, que est em Tquio. Nem posso acreditar que j se passaram trs anos!
	Voc est tima, mame  disse Trent. De fato, Maureen sempre tivera bom-gosto e um estilo prprio, e comprar bijuterias e acessrios para sua loja de presentes era algo que fazia sem dificuldades.  Seu cabelo tambm est diferente... gostei muito.
	Obrigada. Mas vou passar o elogio para Rae, que  a responsvel pelo meu penteado. A garota tem mos mgicas. E uma sorte t-la aqui conosco.
No era bem assim que Trent pensava, mas agora que o assunto veio  baila, ele resolveu aproveitar:
	Como foi que a conheceu?
	Hal era amigo do pai dela. Quando ele esteve hospitalizado, poucos anos atrs, Hal costumava ir visit-lo, e sempre encontrava-se com Rae. Na poca, ela trabalhava num salo de beleza e comentou com Hal que algum dia gostaria de ter seu prprio salo.  Maureen sorriu.  Havia tanto espao na casa, pois
eu usava apenas uma parte para a butique, ento pensei: por que no aqui? Depois que o pai de Rae faleceu, Hal a trouxe para que eu a conhecesse e, desde ento, ela est conosco.
	Que tipo de acordo voc fez com ela, a respeito da casa?
 Trent indagou.
	Ora, Trent, eu lhe contei tudo sobre isso trs anos atrs, pelo telefone. No se lembra? Ela cuida do jardim e do quintal,
como pagamento do aluguel do salo.
Trent tinha uma vaga lembrana de uma conversa apressada, em seus primeiros dias em Tquio. No prestara muita ateno, pois sua me sempre cuidara dos detalhes da casa que ele herdara dos avs, que haviam falecido quando Trent ainda frequentava a universidade. Porm, desligara o telefone com a impresso de que a me contratara um sujeito chamado Rae para fazer a manuteno do jardim e que a expresso que ela usara, "ocupar uma parte da casa", significava que ele guardaria o material de jardinagem na garagem, ou nos fundos.
	Trent, h algo errado? Porque eu me lembro perfeitamente que, na ocasio, voc disse que no precisava saber dos detalhes e que eu deveria fazer o que achasse melhor.
Sim, aquilo soava como algo que ele prprio teria dito, Trent pensou. E, com certeza, era o que pensava na poca.
	Voc cuidou da casa para mim por bastante tempo, e eu lhe sou muito grato  Trent falou.  O jardim est realmente bonito.  Ao que parecia, a habilidade manual de Rae inclua cercas-vivas.
	Rae mantm o interior da casa impecvel, tambm.
	E isso faz parte do acordo?  Trent achou melhor conhecer todos os detalhes, para saber com o que estaria lidando.
	No, isto ela faz por conta prpria. Afinal,  onde ela mora.
	Entendo...
Bem, ele pensou, no era de admirar que estivesse tomando banho. Ela morava na casa. Ter um salo de beleza no era o bastante para complicar as coisas.
	No pensei que voc se importaria  Maureen prosseguiu.  Voc estava do outro lado do mundo, e Rae precisava de um lugar para ficar. Achei que seria mais prtico ter algum ocupando a casa.
Trent tentou manter a calma.
	Quando vence o contrato de aluguel que voc assinou com ela?  indagou.
	Contrato? Ora, ns no assinamos nada, querido. Foi um acordo verbal. Combinamos que ela pode usar a casa sem pagar aluguel, pelos prximos dois anos. At que voc volte de Tquio.
Trent pressionou a mandbula, mas ficou em silncio.
	O que foi?
	Meus planos mudaram, me. Sei que disse que ficaria em Tquio por cinco anos, mas estava tentando prepar-la para o pior. Na verdade, meu contrato era de trs anos, com opo para dois anos adicionais. Meus trs anos terminaram, e decidi no aceitar a opo. Alis, tomei esta deciso quando voc me contou que pretendia fechar a butique e se aposentar.
	Quer dizer que voltou para ficar? Que maravilha!  Maureen parecia prestes a explodir de alegria. Sempre imaginei
voc morando naquela casa, algum dia.
	Morando aqui? Eu?  Trent riu da ideia.  Mame, eu vou vender a casa.
Maureen arregalou os olhos, chocada.
	O qu? Por qu?
	Vou abrir um hotel em Boston. Pequeno, mas ser apenas meu.
O sorriso de Maureen reapareceu.
	Fico contente com isso, querido. Nunca gostei muito da ideia de voc trabalhar para uma empresa grande e impessoal, capaz de envi-lo para os confins do mundo.
Trent sorriu.
	Eles no me raptaram, me. Fizeram-me uma oferta, muito boa, alis, e eu aceitei.
Bem, agora est de volta.  s isso que importa.  Havia
um tom de profunda satisfao na voz de Maureen.  Mas por que no quer ficar com a casa?
	Porque, para levantar o capital que preciso para comprar o hotel, serei obrigado a vend-la.
	Por que no vende o apartamento que voc tem em Boston? Pode ficar morando aqui em Emerson e...
Trent interrompeu:
	Em primeiro lugar, o apartamento em Boston no vale tanto quanto a casa. Em segundo,  muito mais conveniente morar em Boston, perto do hotel, do que aqui, no acha?
Maureen franziu a testa, pensativa.
	O apartamento no est alugado?
	Sim, mas o contrato vence daqui a trs meses. Este  o prazo que tenho para vender a casa e tomar posse do hotel.
	Voc pretende vender a casa em trs meses? Mas Rae a estar ocupando pelos prximos dois anos!  Maureen fez uma pausa, finalmente compreendendo.  J entendi. E este o problema, no ? Voc quer que ela saia da casa agora. Mas, Trent, eu fiz um acordo com ela!

	No vamos presumir o pior. Afinal, talvez ela queira sair, por iniciativa prpria  Trent arriscou.
	No h qualquer possibilidade disto  Maureen afirmou.  Trent, sinto muito se esta situao atrapalha seus planos, mas Rae tambm tem os planos dela, e est contando em ficar na casa por mais dois anos. Gostaria que voc tivesse me prevenido quanto a isto na primeira vez em que lhe falei a respeito dela.
Ele tambm gostaria.
	Bem, mas no o fiz  retrucou, desanimado.  Terei de combinar alguma coisa com Rae.
O fato de ter todas as cartas na mo no fazia com que Trent se sentisse melhor. O acordo de sua me com Rae fora apenas verbal e ele tinha certeza de que, legalmente, possua todo direito de obrig-la a sair da casa. Mas no queria fazer isso. Se pelo menos Rae concordasse em sair, todos ficariam felizes. Porm, se fosse verdade o que sua me acabara de dizer, isto provavelmente no aconteceria.
Maureen afastou-se para procurar Hal, seu marido. Os convidados espalhavam-se na frente da igreja, alguns dirigindo-se para o estacionamento, a fim de seguir para a recepo. Trent olhou em volta,  procura de Rae, e viu-a prestes a entrar num carro. Caminhou apressado at ela e pousou a mo em seu ombro.
Rae girou o corpo, rpido.
	Voc me assustou!  disse, com o corao aos saltos.
	S queria lhe chamar a ateno  ele explicou. Inclinando-se, fechou a porta do carro e fez um sinal ao motorista, para que fosse sem ela.
Sim, ele havia lhe chamado a ateno, sem dvida, Rae pensou. E como no o faria? Desde o topo dos cabelos loiros at a sola dos sapatos, a presena dele era avassaladora, mscula e dona de um magnetismo impressionante.
	Est na hora de irmos para a recepo  ele falou.
Rae ergueu a cabea, fitando-o nos olhos.
	Voc est querendo ir comigo?  perguntou.
Trent pretendia aproveitar aquele momento para lhe falar sobre a casa, mas vendo-a ali, olhando-o, to linda e to doce... decidiu que a conversa poderia esperar.
	Eu j a havia convidado, lembra-se?  Trent estendeu-lhe o brao, sorrindo.  Importa-se de ir a p?
	No, claro que no.
Aceitando o convite, Rae sentiu o otimismo retornar. Se existisse algum problema com o fato de ela estar na casa, dificilmente Trent se ofereceria para acompanh-la  festa. Ela o vira conversando com Maureen e conclura que Trent tivera todas as dvidas esclarecidas.
Os dois eram os nicos que seguiam a p para o local da festa, que no ficava distante. A meio caminho, quando atravessavam o parque da cidade, Rae parou no gramado.
	Importa-se de virar de costas por um instante?  pediu.
Embora curioso com o estranho pedido, Trent obedeceu. Atrs de si, ouvia rudos farfalhantes.
	Ah... Que delcia!  Rae murmurou, com um suspiro satisfeito.
	Posso olhar agora?
Trent havia andado por aquele parque numerosas vezes, com os amigos, com sua me, seus avs, e incontveis namoradas, mas esta era a primeira vez que algum havia parado e lhe pedido para se virar.
	Pode, sim.
	Ento, aqui vou eu.  Virou-se de frente para ela e prendeu o flego por um instante.
Rae estava descala, com os sapatos numa das mos, enquanto a outra ocupava-se em guardar as meias de nylon na bolsa. Ele piscou e, numa breve frao de segundo, um fato alarmante ficou claro em sua mente: estava inegavelmente, dolorosamente, atrado por aquela garota.
Rae balanou a cabea de leve, como se soubesse que no poderia correr o risco de desmanchar o coque sofisticado. Os cabelos escuros puxados para trs formavam uma moldura elegante para o rosto de pele clara, com as delicadas sobrancelhas arqueadas. Trent apanhou-se pensando como ela ficaria com os cabelos soltos, sedosos e cheios caindo-lhe pelos ombros.
Retomaram a caminhada pelo parque, direto para a casa dos pais de Jim, onde se daria a recepo, seguindo sempre pelo gramado macio. Rae no parecia preocupar-se com o fato de estar descala, enquanto Trent, pelo contrrio, estava intensamente consciente disto. Os ps dela eram finos, bem torneados, com a pele sedosa... e ele sentiu mpetos de toc-los.
Passou a mo pelo rosto, esperando afastar a sensao perturbadora. Olhou para Rae, que encarou-o, sorrindo.
	H algo de excitante num dia to bonito, no acha?  ela falou, respirando profundamente e, depois, exalando um suspiro.
Trent sabia o que ela queria dizer. Havia algo de excitante nela tambm, pensou, acertando o passo com o dela e desejando poder imit-la e tirar os sapatos.
Porm, conteve o impulso e limitou-se a caminhar ao seu lado, saboreando a presena daquela garota linda e intrigante, cujo sorriso lhe tocava fundo no corao.
Ao chegarem na calada, do outro lado do parque, Rae tornou a calar os sapatos. Trent ajudou-a a manter o equilbrio, segurando-a levemente pelo brao e, por estranho que parecesse, no queria mais solt-la. Ela enviou-lhe mais um daqueles sorrisos calorosos.
	Sr. Colton, eu...
	Por favor, me chame de Trent.
Ela hesitou. Preferia o distanciamento estabelecido pelo tratamento formal, mesmo ele sendo apenas um pouco mais velho do que ela.
	Todos por aqui me chamam assim, Rachel. Ou ser que devo cham-la de Rae?
	 assim que todos me chamam  ela respondeu, com um meio sorriso.  Rae era meu apelido de infncia.
	Combina com voc.
Era o que o pai dela sempre dizia, Rae lembrou-se, sentindo um sbito n na garganta.
	Bem, creio de devemos conversar sobre a casa  disse, tentando mudar de assunto.  Imagino que o fato de eu estar morando l foi uma surpresa para voc.
Ela era direta, isto ele tinha de reconhecer. E decidiu responder com a mesma sinceridade.
	To surpreendente quanto minha sbita apario deve ter sido para voc  disse.  Minha me havia me falado a respeito do acordo que vocs fizeram mas, francamente, no prestei muita ateno nos detalhes, na poca. Porm,  evidente que voc fez um excelente trabalho nos jardins e no quintal da casa.
Rae relaxou, e as linhas de preocupao que haviam se formado em sua testa comearam a desaparecer.
	Ento est tudo bem? Puxa, nem sei lhe dizer o que isto significa para...
Trent ergueu a mo, interrompendo-a.
	Espere um pouco, Rae. H algo que voc precisa saber. Eu no faria objeo alguma ao seu salo de beleza, nem com o fato de voc estar morando na casa, se no fosse por uma coisa.
	O que ?
	Vou vender a casa.
Rae sentiu os joelhos dobrarem.
	Vender... a casa?
	Exatamente.
	Bem, suponho que isto demore um pouco. Anos, talvez  ela arriscou, esperanosa.
Ele balanou a cabea, em negativa.
	Meses. O tempo exato para que meus planos coincidissem com a deciso da minha me de fechar a butique.
Mas Maureen e eu combinamos que eu ocuparia a casa por mais dois anos, mesmo se ela fechasse a loja!
A voz dele tornou-se mais suave.
	Agora me arrependo de no ter me comunicado melhor com minha me. Gostaria de poder honrar o acordo que ela fez com voc, mas no vejo como. No h a menor possibilidade de eu manter aquela casa por mais dois anos.
- Voc quer que eu me mude...  A voz de Rae parecia estar vindo de muito longe. Nada parecia real, naquela conversa.
	O que eu quero  comprar meu prprio hotel, e para isso preciso do dinheiro da venda da casa. Infelizmente, isto significa que voc precisa sair.  Fez uma pausa, antes de juntar:
 Sinto muito, Rae, mas estou de mos atadas. Tive uma sorte incrvel de encontrar o hotel que desejo comprar, alm de um comprador interessado na casa. Meu plano  que ambas as transaes aconteam num prazo de trs meses.
Rae sentiu o peso daquelas palavras sobre si. Ele no era o nico que tinha planos, e os seus estavam indo pelos ares. Mudar-se? Ela havia ido para Emerson com a ideia de montar um negcio prprio e, com muita determinao e pouco dinheiro, estava conseguindo ir adiante. Sua boa reputao lhe garantira uma clientela fiel e tudo o que precisava era de um pouco mais de tempo, a fim de juntar o capital necessrio para dar entrada numa casa prpria.
Ela precisava ficar na casa de Trent. No havia nenhum outro lugar na cidade onde pudesse instalar o salo e morar, e ela no tinha condies de pagar dois aluguis e economizar algum dinheiro para o futuro. Alm disso, no podia ir embora de Emerson, a cidade que aprendera a amar e que a acolhera com tanto carinho.
Pois nos ltimos trs anos, seu sonho crescera. Agora, ela no queria apenas ter seu prprio salo, queria-o naquela cidade que amava, na casa que adorava.
A casa de Trent.
Ao encarar a ideia de perder tudo, Rae sentiu o desespero emergir dentro de si e, com ele, uma nova coragem.
	Ento voc acredita que o acordo que fiz com sua me pode ser menosprezado pelos seus planos? Legalmente?  perguntou, tentando manter a voz firme.
	De fato, vocs tinham um acordo prioritrio  Trent concedeu.  Mas nada foi feito por escrito. Em termos legais, isto se torna um tanto nebuloso. No sou advogado, e nem voc. Se realmente quisermos brigar por causa disto, acabaremos gastando todo nosso dinheiro com advogados, para que a questo fique resolvida. Mas seguiremos este caminho, se  o que voc deseja.
Entretanto ele esperava, de todo corao, que ela no desejasse. Se as coisas ficassem presas numa corte de justia, jamais se resolveriam em trs meses e ele acabaria perdendo o hotel e o comprador em potencial.
	No  ela respondeu, sabendo que, no final das contas, ele acabaria ganhando a causa. Alm do mais, no tinha condies de pagar um advogado.  Mas tambm no quero me mudar  afirmou, determinada.
Trent tambm se mostrava resoluto.
	Gostaria de poder ajud-la, Rae, mas no sei como.
	Deve haver algum jeito de ambos conseguirmos o que queremos!  ela exclamou, agitada.  Isto no  justo!
	Concordo plenamente.  Trent segurou-a pelos braos e, num tom compreensivo, disse:  Escute, ns dois tivemos muitas surpresas, por hoje.
Comeou a massagear-lhe o brao com delicadeza, fazendo movimentos lentos para cima e para baixo. A despeito de tudo, Rae sentiu-se relaxar.
	Mas, por mais importante que estas coisas sejam para ns  ele prosseguiu,  acho que Jim no nos perdoaria se perdssemos a festa do casamento dele.  Baixou o tom de voz, transformando-o quase num sussurro.  A no ser que voc diga o contrrio, ainda sou seu acompanhante, no sou?
E, pela terceira vez naquela tarde, Trent ofereceu-lhe o brao. E ela aceitou.


CAPITULO II

A caminhada por um quarteiro da rua Prin-Lcipal ajudou Rae a clarear as ideias a respeito da casa. Trent queria que ela sasse mas era vital que ficasse. De alguma forma, iria obrig-lo a honrar o acordo que fizera com Maureen.
No segundo quarteiro, foi a confuso de sentimentos em relao a Trent que comeou a clarear. No podia negar que estava atrada pelo seu charme. Nem fingir que no se sentia bem andando de braos dados com ele, ouvindo a conversa animada e admirando o sorriso encantador. Porm, no podia evitar de pensar que ele utilizava todo aquele charme para faz-la concordar em sair de sua casa.
Rae sempre preferia a conciliao ao confronto mas, por via das dvidas, ficaria em alerta. Aproveitaria a presena agradvel dele, sem sucumbir aos seus encantos.
Talvez ele acabasse vencendo, utilizando-se de meios justos ou no, mas ela no lhe tornaria as coisas mais fceis. De maneira alguma ele a conquistaria a fim de convenc-la a sair da casa.
A festa j ia a todo vapor, quando chegaram. Parecia que a cidade inteira havia sido convidada, Trent pensou enquanto acompanhava Rae pela entrada da frente. Rae retirou a mo de seu brao quando um grupo de amigas a chamou, mas ele pressionou-lhe a mo levemente, antes que ela se afastasse.
	No se esquea de mim  cochichou.
	No vou esquecer  ela disse, com um brilho nos olhos castanhos.
Trent registrou a expresso suave e esboou um sorriso.
No instante em que se viu sozinho, foi convocado para ajudar a carregar a mesa de jardim que fora emprestada pelo vizinho do lado. Carregando a outra ponta estava Mason O'Hara, que continuava to alto, magro e pensativo quanto fora na poca em que estudara na mesma classe que Trent, no colegial. Carregando dois bancos de madeira ao mesmo tempo, um homem do tamanho de uma montanha aproximou-se de Trent.
	Quem diabos  voc, estranho?  o homem indagou, com um vozeiro.
Trent sorriu.
	Ora, vejam se no  o Little Ed Davis!  exclamou, em resposta.  H quanto tempo!
	Quanto tempo, ele diz! Pois eu pensei que voc nunca mais fosse aparecer por aqui, seu patife!  Largando os bancos no cho, Little Ed envolveu Trent num abrao de urso, exatamente como costumava fazer quando ganhavam os jogos de futebol na escola.
Trent retribuiu o abrao, lembrando-se de que seu enorme e musculoso amigo agora trabalhava com o pai, Big Ed, no posto de gasolina da famlia.
	E voc est ainda mais feio do que me lembro!  retrucou, em tom de brincadeira.
Litlle Ed riu alto, afastando os cabelos ruivos do rosto.
	Pelo menos escapei de ser um "mauricinho" como voc!
Mason fez a volta pela mesa, a fim de tambm cumprimentar Trent com um abrao.
	 timo tornar a v-lo, companheiro  disse, com sinceridade.  Voc precisa conhecer minha esposa e meus filhos.
Trent ficou boquiaberto. Esposa e filhos, no plural. Mason?
	Puxa, as coisas por aqui mudaram um bocado nestes ltimos anos. Voc est casado e, agora, Jim... Parece que, da nossa turma, somos os nicos que ainda podemos sair pela noite, Little Ed.
Little Ed explodiu numa risada compatvel com seu tamanho e estendeu a mo esquerda para o amigo. Uma aliana de ouro reluzia no dedo anular.
	Voc ter de fazer suas farras sozinho, amigo  disse. Voc tambm? Pois eu gostaria de conhecer as mulheres que desceram to baixo a ponto de casar com sujeitos como vocs  Trent brincou.
Porm, de uma forma estranha, ele se sentia trado. Sem saber exatamente o motivo, presumira que, no importava para onde fosse ou por quanto tempo ficasse afastado da cidade, as coisas sempre continuariam as mesmas na velha e pacata Emerson.
No tinha o direito de se sentir assim, pensou. Afinal, ele escolhera partir. Primeiro, para fazer a faculdade em Boston e, depois, para trabalhar. Nos ltimos trs anos que passara em Tquio, as barreiras do tempo e da distncia fizeram-no perder o contato com os velhos amigos.
 Espere s um pouco e ser apresentado s duas mulheres mais bem casadas do estado de Massachusetts  Little Ed prometeu.
Depois de deixarem a mesa no lugar designado, Little Ed e Mason se afastaram, deixando Trent vagando por entre a pequena multido, trocando cumprimentos com antigos colegas de escola, vizinhos e amigos de sua me. Todos estavam sorrindo, fazendo brincadeiras, dando-lhe tapinhas nas costas. Os apertos de mo eram verdadeiros, sinceros. Bem diferentes dos cumprimentos formais que recebia diariamente em seu trabalho. E os sorrisos tambm eram espontneos.
Mas nenhum to lindo como o de Rae, ele pensou vendo-a conversando e rindo entre as damas de honra, e sentiu uma pontada de culpa. Sabia que o quanto a questo da casa a deixara perturbada e, no entanto, ali estava ela, deixando os problemas pessoais de lado para reunir-se  comemorao. Comemorao do casamento de um homem que, Trent lembrou-se, recentemente fora namorado dela.
Naquele instante Rae virou-se e apanhou-o olhando para ela. Pareceu um tanto encabulada, por um segundo, mas logo retribuiu o sorriso que ele lhe enviou. Reparando que ela no estava bebendo nada, Trent fez um gesto mostrando o prprio copo. Ela assentiu e, mantendo o sorriso no rosto, virou-se novamente para a mulher com quem estivera conversando.
Trent estava surpreso com o efeito que aquele sorriso lhe provocara. Fora to suave e inocente, bem diverso dos sorrisos tentadores que normalmente as mulheres utilizavam para flertar com ele. Mulheres que no se importavam em ter um relacionamento breve e ftil, que no davam a mnima para qualquer tipo de compromisso.
Porm, o sorriso de Rae lhe provocava um calor diferente, e um arrepio percorreu-lhe o corpo ao olhar a curva suave dos tornozelos sob a saia comprida que ela usava. No instante seguinte, entretanto, afastou a sensao perturbadora, sabendo que ela no era como as garotas que entravam e saam facilmente de sua vida, naqueles anos todos.
Foi at a mesa onde estavam servindo as bebidas e pegou uma cerveja para si mesmo e uma limonada para Rae. Por algum motivo inexplicado, tinha certeza de que ela iria preferir limonada. E estava certo.
Rae aceitou o refresco com prazer, e bebeu um longo gole. Mason aproximou-se deles e apresentou Trent  esposa, Mi-chelle, que conhecera na empresa de computao onde ambos trabalhavam. Mas Michelle havia parado de trabalhar, agora, pois alm de Davey e Alex, os dois filhos do casal, havia mais um a caminho. Enquanto conversavam, Little Ed reuniu-se ao grupo com a esposa, Caroline, que fora a lder da torcida no colgio. Naquela poca, ela fora apaixonada por Trent, mas agora olhava Little Ed com adorao, enquanto ninava a fi-lhinha de ambos nos braos.
Rae conhecia todos, e parecia bem mais  vontade no grupo do que Trent se sentia. Para ele, era uma experincia estranha estar ali, na companhia das esposas e filhos daqueles que haviam sido seus colegas de escola e companheiros de aventuras adolescentes. E, no fundo, tinha de admitir que seus amigos pareciam extremamente felizes.
S faltava Jim, que apareceu em seguida acompanhado da jovem esposa, Lynna, que usava o vestido de noiva que fora da me. A felicidade dos dois era mais do que evidente.
 A comida est sendo servida, portanto tratem de se apressar  Jim foi dizendo.  Principalmente se Little Ed for o primeiro da fila  acrescentou, brincando.
A enorme mesa estava repleta de uma variedade de pratos caseiros, tpicos da regio da Nova Inglaterra. Trent sentia como se estivesse voltando no tempo e lembrou-se de que, na ltima vez em que fora a um casamento como aquele, tinha
a mesma idade que os meninos e meninas que agora corriam pelo jardim, arruinando as roupas novas.
	H crianas neste casamento  comentou em voz alta, como se s ento percebesse.
	E o que h de errado nisso?  Rae indagou, olhando-o.
	Nada.  Na verdade, Trent estava contente com a presena de crianas, que se divertiam a valer.   que, em todos os casamentos que tenho ido ultimamente, as crianas parecem ser to bem-vindas como uma praga.
	Deve ser muito triste  disse Rae, com uma expresso desolada.
Levando os pratos, escolheram uma mesa vazia, mas logo os outros lugares foram ocupados por antigos moradores da cidade, e que Trent no via h tempos. A conversa flua animada e amigvel, e Trent tentou calcular h quantos anos no se sentia to bem. -
O conjunto musical da escola, o mesmo grupo no qual Trent certa vez tocara trompete, fornecia a msica suave enquanto a refeio era servida. E a comida era muito melhor do que aquela que ele costumava comer nos melhores restaurantes e nas recepes sofisticadas que frequentava.
	Voc  sempre assim, to calado?  Rae perguntou, interrompendo-lhe os pensamentos.
Trent virou-se para ela, com um leve sorriso.
	S estou apreciando a paisagem  disse.  Fiquei muito tempo fora.
	Voc morou em Tquio por trs anos, no ?
	Sim, mas sa de Emerson na poca em que fui para a faculdade.
Rae ficou surpresa.
	E no voltou mais, desde ento?
	Apenas para algumas visitas, de vez em quando.
	E acha que a cidade mudou muito?
	Sim e no  ele respondeu. De certa forma, tudo continuava como ele se lembrava, fazendo-o sentir como se fosse ele quem havia se modificado. Porm, evitando a introspeco, concentrou-se na garota que estava ao seu lado.  So as mesmas pessoas de sempre, mas agora tm os cabelos mais bem-arrumados  brincou.
Rae encarou-o por uma frao de segundo, e riu.
	Se est tentando me amolecer com elogios, para que eu saia de sua casa, sr. Colton,  melhor mudar de ttica.
	Mas estou dizendo a verdade. Minha me est muito bonita, e tambm as amigas dela. A noiva, as damas de honra... ouvi dizer que voc fez os penteados sem cobrar nada, no ? No estou lhe fazendo um elogio gratuito, estou constatando um fato. E, a propsito, ser que  muito difcil me chamar de Trent?
Rae olhou-o por um breve instante, e Trent perguntou-se por que seu corao batia mais forte do que o normal.
	Est bem. Obrigada pelo elogio, Trent  ela disse.
	Voc merece muito mais  ele retrucou, levantando-se em seguida para se servir novamente.
Quando retornou  mesa, viu que Rae fora danar com Ma-son. O conjunto tocava uma msica animada e, ao que parecia, todos os convidados haviam se levantado para danar.
	Meu filho no est danando?  disse Maureen, sentando-se ao lado dele no banco de madeira.
Trent sorriu.
	At agora, no vi ningum que pudesse me afastar deste prato de comida. Exceto voc,  claro. Quer me dar a honra?
	Pensei que nunca me convidaria.
Foram juntos para o salo improvisado no centro do quintal.
	Como vo as coisas para voc, mame?
	No posso me queixar. Mas tenho sentido uma certa ansiedade, ultimamente...
	Ansiedade?  ele repetiu, preocupado.
	Sim, para ser av.  muito comum nas mulheres da minha idade, sabia?
	Ora, mame...  Trent riu, abraando-a de leve.  De testo v-la querer tanto a nica coisa que no posso lhe dar. Por mais que eu deseje v-la feliz, no consigo me imaginar casado e com filhos.
	No pense que estou me queixando  disse Maureen.
 Afinal, sou sua me e apenas quero que voc seja feliz. Posso me contentar em segurar os netos das minhas amigas. 
 claro, Trent pensou, quase todas as amigas dela j eram avs. Ou estavam prestes a ser, refletiu ao ver a maneira terna com que Jim olhava para Lynna, enquanto danavam.
Como est se sentindo, a respeito de fechar a loja? perguntou  me, tentando mudar de assunto.
Maureen sorriu.
	J estava na hora de me aposentar. Hal e eu no tivemos chance de viajar em lua-de-mel, quando nos casamos, e estamos fazendo grandes planos. E, quando voltarmos, estou pensando que seria divertido trabalhar com Rae, pelo menos em meio perodo.
Trent continuou em silncio.
	Querido, voc se incomodaria de mudar de par? Ainda no dancei com Hal.
Trent acompanhou a me at onde Hal estava, e enlaou a garota com quem ele danava: Rae.
	Voc me deixou sozinho na mesa  ele disse.  E quando a vi girando no salo, percebi que nada a faria sair daqui.
	Ah, Trent, me desculpe  ela riu.  Mas depois que dancei com Mason, Connor, o garoto que entrega os jornais no meu bairro, veio me convidar. E voc sabe como os egos masculinos so frgeis, nesta idade.
	Egos masculinos so frgeis em qualquer idade  Trent retrucou, mas o sorriso em seu rosto suavizava a seriedade das palavras. O conjunto passou a tocar uma msica lenta, e ele apertou-a um pouco mais contra si.  Mas agora voc j fez um "aquecimento", e fico contente em t-la s para mim.
Sim, ela estava bem "aquecida", Rae pensou, imaginando se em qualquer outra ocasio de sua vida teria se sentido assim. No era uma garota acostumada aquele tipo de flerte, mas no podia evitar a sensao deliciosa de ser enlaada pelos braos fortes e msculos, sentindo-lhe o suave perfume.
Trent percebeu o instante exato em que ela relaxou, quase dissolvendo-se contra ele e lhe provocando algo que jamais sentira antes. O ato de danar sempre lhe parecera ftil, ou o preldio para outras coisas. Mas danar com Rae era diferente: um prazer sensual, indefinido. E isso o deixou assustado.
Imediatamente Rae percebeu que ele ficava tenso, e ela prpria voltou  realidade. Ergueu a cabea e encarou-o.
	Talvez possamos chegar a algum tipo de acordo  disse.
	Humm?
	Sobre a casa  ela insistiu.  Talvez a pessoa interessada em comprar no se importe que eu continue morando l.
	No, ela est planejando transformar a casa num restaurante - Trent informou.  Receio que no sobre espao para seu salo de beleza.
	Ah...  Rae tentou uma abordagem diferente.  Sabe, isso no  da minha conta, mas acho que a casa de seus avs tem um significado especial,  mais do que simplesmente um imvel. Voc tem certeza de que quer vend-la?
Trent ficou em silncio por um instante, antes de responder:
	Eu quero um hotel.
Rae sentiu desaparecerem todas as esperanas para um novo acordo com ele. Trent estava determinado a vender a casa, e ela teria de sair. Se tudo isso acontecesse dali a dois anos, ela prpria seria capaz de lhe fazer uma oferta pela casa.
	Escute, Rae, estou me sentindo muito mal com esta situao. Mas voc precisa entender que se a venda da casa no se concretizar, no estarei apenas perdendo um investimento. Estarei destruindo todo meu futuro.  Trent calou-se por um momento e juntou:  No tenho inteno de expuls-la de uma hora para outra, portanto creio que voc pode ficar na casa por mais trs meses, at que a papelada esteja toda pronta. E, se quiser, posso ajud-la a encontrar um outro ponto para seu salo. Nas circunstncias,  a melhor oferta que poderei lhe fazer.
A msica terminou e, com ela, a esperana que Rae acalentara, quanto a Trent honrar o compromisso de Maureen. Enquanto afastava-se dele, Jim aproximou-se do microfone, juntamente com Lynna.
	Ateno, todos! Ns dois no estaramos aqui, desfrutando do dia mais feliz de nossas vidas, se no fosse por uma pessoa muito especial  Jim comeou.
Rae sentiu um aperto no estmago. Aquilo acontecera nos onze ltimos casamentos em Emerson, e ela j deveria estar preparada. Porm, mais uma vez, foi apanhada de surpresa. Percebendo sua ligeira hesitao, Trent olhou-a e passou o brao em torno de seus ombros.
Jim continuou:
	E, neste momento, gostaramos que todos se juntassem a ns num agradecimento a Rae!
Quando os convidados comearam a aplaudir, Rae sentiu Trent retirar o brao de suas costas. Vrios casais, incluindo Jim e Lynna, Little Ed e Caroline, Mason e Michelle, bem como seus pais, aproximaram-se e abraaram-na, agradecendo. Rae forou um sorriso largo, aceitando os agradecimentos.
Trent a observava, com a sobrancelha arqueada, confuso. Rae voltou para perto dele e esboou um sorriso desolado.
	Tenho mais um apelido, nesta cidade, alm de "Rae"  disse.
	 mesmo? E qual  o outro?
Ela respirou fundo.
	A "Fazedora de Noivos".
Ele a encarou, atnito.
	O qu?
Jim intrometeu-se, sorrindo para o amigo.
	"Fazedora de Noivos"  repetiu.
	Mas o que isso quer dizer?  Trent indagou, cada vez mais confuso.
	Quer dizer que os doze rapazes com quem Rae namorou, desde que chegou aqui em Emerson, todos acabaram se casando. Com as garotas que conheceram logo depois de terminar o namoro com ela  Mason explicou.
Trent olhou para Rae.
	Isso  verdade?
Ela encolheu os ombros.
	Quando a gente faz alguma coisa tantas vezes, acaba ganhando um apelido  disse.
	Quer dizer que voc  um tipo de "casamenteira"?  Trent indagou, parecendo horrorizado. Talvez, quando menos esperasse, iria encontrar um luminoso em non dizendo "Faz-se Noivos", ao lado daquele que indicava o Styles, na porta da frente de sua casa.
Rae tentou tranqiliz-lo:
	No sou "casamenteira", tampouco algum tipo de feiticeira. Acontece que, sempre que saio com algum rapaz, logo em seguida ele encontra a mulher ideal e se casa. Parece uma estranha coincidncia.
Ela no fazia ideia de como ou por que isto acontecia. Simplesmente era assim, embora ela preferisse que no fosse.
	 um dom, com certeza  Darlene, a me de Little Ed, intercedeu.  Doze  um nmero significativo demais para ser apenas coincidncia.
	Mas, como?  Trent no conseguia acreditar no que estava ouvindo.
A me de Mason, Jeanne, proprietria da padaria da Rua Principal, adiantou-se para oferecer sua opinio:
	Parece mgica, e  mgica! Rae possui algo de muito especial. Depois de sair com ela algumas vezes, Mason tornou-se repleto de auto-confiana. E Jim? Ficou um fregus assduo da floricultura. Quanto a Little Ed, at comeou a limpar as unhas, sempre sujas de graxa.
O pastor local, que celebrara o casamento, juntou-se ao grupo e cumprimentou Rae com um aperto de mo.
	Graas a esta minha scia, agora minha parquia tem o maior nmero de casamentos e o menor de divrcios, em muitos anos.
Rae conseguiu esboar um sorriso fraco, e olhou para Trent, tentando adivinhar como ele estaria reagindo a tudo aquilo. O sorriso dele alargava-se a cada instante, e parecia ter superado o choque inicial.
 Ento me diga, h quanto tempo esta "magia" vem acontecendo?  ele perguntou.
	Bem, no sei exatamente  Rae respondeu.  Tudo o que sei  que um dia estou saindo com um rapaz e, no outro, estou lendo o anncio do casamento dele no jornal.
Trent parecia estar se divertindo, agora.
	Vejamos... Voc mora aqui h trs anos e j fez doze noivos. Isto d uma mdia de um noivo a cada trs meses. Voc trabalha rpido.
Rae franziu a testa.
	J lhe disse que isso no  nenhum "trabalho". Eu no fao nada, as coisas simplesmente acontecem.
Mas ele j no a ouvia, virando-se para Jim.
	Ei, Jim  chamou.  Por que no me contou que Rae era uma celebridade?
	Ora, no venha me acusar. Quando voc me contou que estava com Rae, eu lhe disse que podia apostar que seria o prximo. No foi?
- Sim, mas...
Trent calou-se, e Rae percebeu a expresso dele se modificar, a. medida que compreendia a extenso das palavras do amigo.
Little Ed aproximou-se e lhe deu uma palmadinha nas costas.
	Aqui est o homem que jurou que nunca se casaria.
	 uma questo de lgica, Trent  disse Mason.  Tenho certeza de que voc ser o dcimo-terceiro de Rae.
	No ser, no  Rae interrompeu. Se fosse obrigada a olhar para a expresso angustiada de Trent por mais um minuto, era capaz de gritar.  S ficamos juntos por acaso. Trent viu que eu ia entrar na igreja sozinha e foi muito educado oferecendo-se para me fazer companhia. Agora, deixem-no em paz, por favor.
	E perder a chance de testar o solteiro mais convicto desta cidade?  Jim insistiu.  De jeito nenhum!
	Voc consegue faz-lo mudar de ideia, Rae!  Mason encorajou.
	No consigo nada!  ela bjetou, levemente exasperada. 	Nunca fiz nada, vocs todos se casaram porque quiseram.
E Trent no quer se casar.
	E verdade  Trent, que estivera ouvindo a troca de palavras, intercedeu.  Afinal, a ltima coisa que Rae precisa  namorar um sujeito como eu. Seria como estar num beco sem sada.  E a ltima coisa que ele queria era namorar uma garota como ela, to doce, linda e... irresistvel.
Rae voltou a falar:
	E por que Trent iria querer namorar comigo? Tenho certeza de que, agora, todos vocs j esto sabendo que ele deseja que eu saia da casa, para que possa vend-la. No momento, sou o maior problema dele.
Little Ed estreitou os olhos, pensativo. E, h muito tempo, Trent sabia que aquela expresso do amigo significava encrencas.
	Pois acho que isso no  um problema  Little Ed falou, devagar.   uma soluo.
Trent sentiu um leve arrepio na espinha.
	Do que est falando, Little Ed?
	Voc no acha possvel que Rae consiga transform-lo num noivo, no ?
	Nem ela, nem ningum.
	Ento no h motivo para temer que ela faa uma tentativa 	Little Ed provocou-o.  Voc sabe... namorando com ela.
Trent ergueu as mos.
	Ei, espere a um pouco  disse, defensivo.  No est sugerindo que eu a use, apenas para provar que voc tem razo...
	O que est sugerindo, exatamente, Little Ed?  Rae indagou, curiosa.
Little Ed sorriu.
	 o seguinte: j que Trent tem tanta certeza de ser imune ao casamento, talvez fosse divertido fazer uma aposta, desta vez.
Rae franziu a testa.
	Uma aposta?
	Exatamente. Talvez isto tornasse as coisas mais interessantes. Voc poderia apostar que  capaz de transformar Trent
num noivo, e ele aposta que no.
Ao mesmo tempo, Rae e Trent abriram a boca para protestar, mas Little Ed fez um gesto com a mo, impedindo-os.
	Ter de haver um limite,  claro  continuou falando, pensativo.
	Sem dvida  Trent opinou.  Porque se Rae ficar namorando comigo at que eu me case com algum, isso levar a vida inteira.
Little Ed ignorou-o.
	Trs meses... acho que  um prazo razovel  disse.  E deixaria as coisas mais excitantes, no concordam?
Rae balanava a cabea, em negativa, mas Little Ed prosseguiu:
	E,  claro, a aposta dever ter um prmio interessante.
	Como o qu, por exemplo?  Rae indagou.
	Algo que vocs dois querem ter.
Houve um breve momento de silncio, antes que os rostos em torno de Little Ed comeassem a se iluminar de compreenso.
	Minha casa?  Trent perguntou, incrdulo. Little Ed costumava ter umas ideias malucas, mas aquela superava a todas.  Por que eu faria uma aposta como esta?  um absurdo!
	Ora, mas voc no est to convicto de sua opinio? Ou ser que tem medo de perder?  Mason provocou-o.
	Voc nunca vai se casar, Trent  Jim acrescentou.  J nos disse isso um milho de vezes. Por que se preocupar? 
Trent balanou a cabea.
	No posso correr o risco de perder a casa. Os papis da venda j esto sendo providenciados, e o novo proprietrio de ver tomar posse em trs meses.
	Isso ser difcil, desde que Rae tem um acordo com sua me que a permite ficar na casa por mais dois anos  Little Ed intercedeu.  A no ser que voc esteja mesmo disposto a romper este acordo, Trent.
O silncio caiu novamente entre o grupo, e todos os olhares estavam pousados em Rae e Trent, que se encaravam. Sem nada dizer, ambos afastaram-se para debater o assunto.
	Se concordarmos com esta aposta maluca, o acordo que voc fez com minha me ficar anulado  Trent falou, e Rae assentiu.  Se eu ganhar, quero que saia da casa em trs meses  juntou, e ela assentiu novamente.  E, caso voc ganhe, pode ficar na casa por mais dois anos, sem pagar aluguel.
Rae discordou:
	Isto  o que eu faria de qualquer maneira  disse.  E o acordo que tenho com Maureen.
	Ento, o que deseja, se ganhar?
	Quero ficar na casa por mais dois anos e, depois, ter a opo de compr-la.
Ele ficou surpreso.
	Voc quer comprar a casa?
	Mais do que tudo no mundo.  E, num prazo de dois anos, teria condies para isso.
Trent pensou por um instante. Se ele ganhasse a aposta... No, quando ganhasse a aposta, Rae teria de sair da casa dali a trs meses, em meados de agosto, sem que o acordo que ela fizera com sua me fosse rompido. Gostava daquela ideia. Poderia vender a casa e comprar o hotel sem ser atormentado por sentimentos de culpa.
Porm, se perdesse, seria obrigado a manter a casa por mais dois anos, o que significaria perder o hotel em Boston. E teria de continuar em seu antigo emprego, trabalhando em Tquio por mais dois anos. Isso seria terrvel.
Mas... espere um pouco, pensou. Se perdesse a aposta, ele estaria casadol
Rae sentia o desapontamento ser substitudo pela esperana. At h pouco visualizara-se empacotando seus sonhos para sempre. Olhou para Trent, tentando adivinhar-lhe os pensamentos.
	O que acha?  ele perguntou, afinal.
	Voc  o dono da casa, agora  Rae retrucou, aps uma longa pausa silenciosa.  Tem certeza de que quer correr o risco de perd-la?
Trent forou-se a encarar a situao com objetividade.
	Esta  a aposta mais segura que j tive a chance de fazer, em toda minha vida. Como lhe disse, eu nunca vou me casar.
Alm disso, pensou, trs meses seria um prazo muito curto. At mesmo para as pessoas dispostas a casarem-se, seria muito difcil encontrar o par certo e decidir tudo em to pouco tempo.
Little Ed aproximou-se deles.
	Ento, o que resolveram?  indagou.  Esto dispostos a arriscar?
Trent j tomara sua deciso.
	Vai depender de Rae, agora  disse.
Ela olhou para Little Ed e, depois, para Trent.
	Tenho algumas condies, antes de concordar.
	Pode dizer. Se forem razoveis, eu aceito.
Rae cruzou os braos, encarando-o.
	Bem, em primeiro lugar voc precisa querer me namorar e sair comigo regularmente. Pelo menos trs vezes por semana.
Trent sentiu um frio no estmago. Uma parte de si adorava a ideia de passar mais tempo ao lado de Rae, enquanto que outra, mais racional, o avisava para ter cuidado. Porm, ao mesmo tempo refletia que, a no ser que algum colocasse uma arma em sua cabea obrigando-o a assinar um contrato de casamento, ele iria ganhar aquela aposta.
	Voc j fez isso doze vezes, portanto creio que seja a especialista no assunto. Estou s suas ordens  disse.
Rae ignorou o tom zombeteiro e prosseguiu, sria:
	Mas no teremos um relacionamento exclusivo. Poderemos sair com outras pessoas, se quisermos.
Trent colocou as mos nos bolsos, pensativo.
	Isto  uma exigncia, ou apenas uma sugesto?
Rae hesitou. Queria que ele encontrasse uma esposa, e o mais rpido possvel. Entretanto, nenhum de seiis namorados anteriores havia encontrado seu par perfeito enquanto saa com ela. Decidiu arriscar.
	E s uma sugesto.
Trent comeou a ficar impaciente. Havia tomado a deciso e estava pronto para comear.
	Tudo bem, ento j chega de conversa  disse. Olhou para Rae, com uma expresso inescrutvel.  Est preparada para um pouco de ao?
Rae no queria mais pensar em nada pois, se o fizesse, acabaria desistindo. Havia algo, naquele homem, que sinalizava um grande perigo. Assim, olhou-o diretamente e estendeu a mo.
	 melhor aproveitar bem seus ltimos momentos de solteiro, sr. Colton  avisou-o, com um leve sorriso.  A aposta est feita.

CAPITULO III

A notcia alastrou-se como fogo por entre os Lconvidados e, passados dez minutos desde o momento em que Rae e Trent apertaram as mos, cada homem, mulher e criana de Emerson j sabia de todos os detalhes da aposta.
Entretanto, ningum tinha dvidas quanto ao desfecho. Embora Trent tivesse a reputao de ser um solteiro convicto e absolutamente contrrio ao casamento, bem, Rae era Rae. Ela o transformaria num noivo, exatamente como fizera com os outros. Os nicos pontos de discusso eram a respeito de quem seria a futura noiva de Trent e quando todos estariam danando em seu casamento.
Maureen foi falar com os dois.
	Tem certeza do que est fazendo?  perguntou a Rae.
Ela assentiu.
	Desta forma, pelo menos posso ter alguma esperana de permanecer na casa  respondeu. No gostava da ideia de bancar a "fazedora de noivos" novamente, mas pela casa era capaz de tudo. At mesmo disto.
Maureen voltou-se para o filho.
	E quanto a voc? Pode perder o hotel que tanto deseja comprar.
	Ora, mame, j estou bem crescidinho para decidir se devo ou no arriscar tudo por um desafio tolo e infantil feito pelos meus amigos.
Maureen balanou a cabea.
Ainda assim, gostaria que houvesse uma maneira de vocs dois terem o que querem.
	Isso no seria possvel, Maureen  Rae argumentou.  Mas com esta aposta, cada um de ns tem uma chance de vencer.
	Sinto-me to mal por nosso acordo ter de ser rompido...  disse Maureen.
	Pois eu me responsabilizo inteiramente por isso  Trent intercedeu.
	Esta aposta est substituindo nosso acordo  Rae acrescentou, no querendo aborrecer ainda mais a amiga que tanto fizera por ela.  E ns dois estamos dispostos a aceitar o desfecho, no , Trent?
	Sem dvida.
Isto pareceu tranquilizar Maureen, que afastou-se em companhia de Trent. Aliviada, Rae passou a examinar os convidados, ou melhor, as convidadas. Se quisesse ver Trent casado em trs meses, no podia perder tempo, e tampouco aquela oportunidade. Se conseguisse que ele danasse com qualquer garota disponvel da mesma forma com que havia danado com ela momentos atrs, a aposta se encerraria antes do prazo.
J comeava a desanimar pela falta de opes, quando Trent surgiu ao seu lado, levando-lhe um pedao do bolo de casamento. Assim que terminaram, ele props que sassem.
	No quer ficar mais um pouco?  ela perguntou, esperanosa.  Voc s danou comigo e com sua me. Eu poderia lhe apresentar algum interessante... ou talvez haja uma amiga que voc gostaria de rever?
Ele balanou a cabea, em negativa.
	Depois da viagem de Tquio e de dois dias de reunies em Boston, a nica coisa que desejo rever  meu travesseiro.
De certa forma, Rae ficou contente com a desculpa para deixar a festa. Tambm ficara exausta com todas as emoes daquele dia. Agora, mal podia acreditar que o homem caminhando ao seu lado pela rua Principal chegara  cidade a menos de doze horas.
Ao aproximarem-se do estacionamento da igreja, ele parou.
	Preciso pegar o meu carro  explicou.
	Posso continuar a p, daqui  Rae ofereceu.
	Ei, no sou do tipo de sujeito que deixa suas garotas voltarem sozinhas para casa, em plena noite.
Rae refletiu sobre a ideia de ser a garota de Trent. Mas espere um pouco, pensou. Suas garotas, ele dissera. Quantas teriam havido?
Ele segurou-lhe a mo, fazendo com que um arrepio a percorresse por inteiro.
	Imagino que voc queira contar nosso encontro de hoje como o primeiro dos trs que teremos nesta semana  ela brincou, enquanto Trent abria-lhe a porta do carro.
	Voc  quem manda.
Rae decidiu que iria lembrar-se disto se ele tentasse lhe dar um beijo de boa-noite, dali a pouco. Se apenas segurar a mo dele lhe provocava ondas de frio e calor, imagine o que no faria um beijo. E, de uma coisa ela tinha certeza: precisava manter-se bem lcida se quisesse se concentrar em vencer a aposta.
Trent parou o carro diante da casa, desligou o motor e acompanhou-a at a porta. Enquanto procurava a chave na bolsa, Rae ia dizendo:
	Foi uma grande gentileza sua me fazer companhia no casamento, Trent. E mal posso esperar a hora de comparecer ao seu. Eu o convidaria para entrar, se no soubesse que est to cansado...
Calou-se abruptamente. Mas o que estava fazendo? Convidando-o a entrar na prpria casa? Enquanto ela hesitava, Trent tirou uma chave do bolso e destrancou a porta. Abrindo-a, estendeu a mo para a parede e acendeu as luzes da varanda.
	A est  disse.  Ligo amanh, para combinarmos alguma coisa.  Parou e olhou-a, preocupado.  Rae? Tudo bem com voc?
	Onde voc est hospedado?  ela perguntou, abrupta.
	Na casa da minha me, por enquanto.
Pela primeira vez naquele dia, Rae sentiu-se realmente mal.
	Est l por minha causa, no ?  claro que sim... Estava planejando ficar aqui, na sua casa, no estava?
	Bem, para dizer a verdade, estava sim  Trent admitiu. 	At que meu apartamento em Boston seja desocupado, eu pretendia ficar aqui para acertar os detalhes da venda.
E no era s isso, Rae pensou. Agora ele seria obrigado a ficar em Emerson por causa da aposta. Exalou um suspiro desolado.
Mas voc no precisa se preocupar  Trent assegurou-lhe. 	Ficarei perfeitamente bem na casa da minha me.
Ela encarou-o, ctica. A casa de Maureen era bem menor do que aquela, e ela havia transformado o quarto dele num escritrio.
	Vai passar trs meses dormindo espremido, num sof velho?  E vivendo com Maureen e o marido?, pensou. Maureen e Hal eram timas pessoas, mas evidentemente Trent era do tipo independente.
Ele sorriu, bem-humorado.
	Eu sou forte.
Rae tomou uma deciso.
	No duvido, mas neste caso isto no ser necessrio.
Esta casa tem espao de sobra, e no vejo motivos para que voc no fique aqui.
	Espere um pouco... Voc no precisa se sentir culpada por estar ocupando a casa, Rae. Pelo contrrio, tem todo o direito de ficar aqui pelos prximos trs meses.
	E voc tambm. No estou me sentindo culpada  ela insistiu.  Estou sendo egosta. Se passar as noites naquele sof voc vai ficar irritado e de mau-humor, e ento como irei lhe arrumar uma noiva? Estar me ajudando, se ficar aqui.
	As pessoas iro comentar  ele avisou-a.  Minha reputao no  das melhores.
	Ouvi dizer.
	E isso no a incomoda?
Ela apenas teria de ficar alerta.
	Sei me defender  disse.  Alm disso, eu tambm tenho uma "reputao".  Rae sabia que as pessoas no falariam dela nem se andasse nua pela rua Principal.
	Mas  isso mesmo que estou querendo dizer  Trent persistiu.  Voc  a "Fazedora de Noivos", uma lenda nesta cidade. Tem certeza de que quer... manchar o seu bom nome?
Ela girou os olhos, exasperada.
	A est mais um bom motivo para voc ficar. Eu bem que gostaria de ver este "bom nome" manchado para sempre.
Trent hesitou, surpreso com a oferta inesperada. De um lado, ficaria bem mais confortvel ali do que na casa de sua me. De outro, no entanto, o fato de estar sob o mesmo teto que Rae significava manter um contato ntimo. Intimo... No sabia se isto seria bom ou pssimo.
	Bem, voc  quem sabe  ela disse.  E o que decidir est bem, para mim. De qualquer forma, conversaremos amanh. Agora vou me deitar, pois estou exausta. Mais uma vez, obrigada pela companhia.  Ficou nas pontas dos ps e pousou-lhe um beijo no rosto.
O leve beijo apanhou-o de surpresa, e provocou uma reao ainda mais inesperada: ele teve de sufocar o mpeto de tom-la dos braos e beij-la na boca, de verdade. Queria sentir o sabor daqueles lbios, o corpo dela contra o seu.
Mas Rae j desaparecera dentro da casa, deixando-o sozinho para tomar a deciso.
Que deciso?, Trent perguntou-se, enquanto ia at o carro e tirava a bagagem do porta-malas.
Na manh seguinte, Trent refletia se no teria dormido melhor caso tivesse cedido ao impulso e beijado Rae da maneira que queria.
Havia escolhido o quarto do sto, o mesmo que costumava ocupar na casa dos avs, quando criana. Naquela poca, o ranger da antiga casa de madeira o mantinha acordado; na noite anterior, entretanto, foram os pensamentos, dirigidos  mulher que dormia no andar de baixo, que no o deixaram dormir. Mas era de manh, agora, e ele estava pronto para aproveitar o domingo como sempre fizera, quando estava em Emerson.
O silncio era total e no havia sinal de Rae, quando ele saiu. Na rua, parou por um instante e virou-se para admirar a casa, sob a luz da manh. Situada numa pequena elevao e a uma boa distncia da rua, era o tipo de casa que fazia com que as pessoas parassem para olhar. Com trs andares, incluindo o sto, havia sido uma das maiores construes da cidade quando fora erguida, mais de cem anos atrs. Era toda de madeira pintada de branco, com jardineiras floridas sob as amplas janelas, e a varanda da frente era cercada por um intrincado balastre de madeira, que Trent lembrava-se de ter passado horas pintando em companhia do av. Ao lado, o jardim espalhava-se at os fundos. A casa era uma construo solitria, no centro de um vasto terreno cercado por rvores, que tambm faziam parte da propriedade. Tudo estava silencioso e em paz, quando Trent seguiu em frente.
A rua Principal tambm estava tranquila, com apenas o rudo dos pssaros nas caladas arborizadas ressoando na manh. Trent passou diante da padaria e viu a me de Mason preparando-se para o corre-corre matinal. Ela acenou atravs da vitrine, provocando-lhe uma doce sensao de dja-vu. A sensao permaneceu enquanto ele continuou andando, e soube que iria parar ali para comprar rosquinhas, antes de voltar para casa.
Achou que devia estar maluco, ao pensar que poderia encontrar algum no centro da cidade, num domingo de manh. Havia sido uma tradio, para ele e os amigos, encontrarem-se no posto de gasolina de Big Ed e, entre uma e outra garrafa de refrigerante, comentarem os assuntos do dia anterior, fosse um jogo de futebol ou um encontro com as garotas.
E, pela primeira vez desde que se mudara de Emerson, Trent sentiu saudade daqueles encontros de domingo. E sabia que estava querendo demais, ao imaginar que pudessem ser revividos agora.
Por isso, qual no foi sua surpresa ao aproximar-se do posto e deparar com Mason, Little Ed e, usando um short que deixava as gloriosas pernas  mostra... Rae. Ela arregalou os olhos, ao v-lo, mas disfarou rapidamente a surpresa com um sorriso amigvel.
	Vocs ainda vm aqui comparar as conquistas de sbado  noite?  Trent perguntou, sentando na cerca de madeira ao lado dos amigos.
	Sorte sua que no fazemos mais isso  Little Ed respondeu.  Nem posso imaginar que histrias de horror Rae teria para nos contar, depois de ter sado com um patife como voc. Mas ela  educada demais para falar de algum que no esteja presente.
	Estou presente, agora. Pode falar de mim  vontade.
	Eu passo  ela disse, levantando-se e indo pegar a bicicleta encostada ali perto. Parou por um instante nos dois carrinhos de beb ao lado de Mason, e inclinou-se soprando um beijo.  Vou para casa. Vejo vocs mais tarde.
	Pode contar com isso  Trent falou por sobre o ombro, observando-a se afastar pedalando.
	Por que ela teve de ir embora?  Little Ed resmungou.  Agora s nos resta ficar olhando para a cara feia de Trent. 
Mason riu.
	Ela no parecia estar com tanta pressa antes de ele chegar.
	E pensar que teremos de aguent-lo por aqui durante trs meses!  Little Ed queixou-se, com falsa expresso de contrariedade.  S espero que ela consiga cas-lo o mais depressa possvel.
	Bem, um bom dia para vocs tambm  Trent falou, levantando-se para espiar nos carrinhos dos bebs.
Estacionados lado a lado, cada um deles continha um bebezinho tranquilamente adormecido. A filha de Little Ed, Me-lissa, tinha os traos delicados da me e uma verso mais caprichada dos cabelos vermelhos do pai. O filho de Mason era mais velho e, ao que parecia, ficaria to alto quanto o pai. Estava deitado de bruos e os pezinhos chegavam a tocar o outro lado do carrinho.
Trent estava fascinado, e mal podia acreditar que aqueles bebs fossem os filhos de seus amigos de infncia. Olhando-os, podia perceber detalhes da herana que era passada de uma gerao para outra e refletiu que aquelas crianas tinham sorte de ser filhos de pessoas to boas como Mason e Little Ed.
	Quantos meses tinham seus bebs quando Michelle parou de amamentar?  Little Ed perguntava a Mason.
	Davey tinha uns onze meses, mas ela no conseguiu ir to longe com este aqui  Mason respondeu, apontando para o beb no carrinho.  Ele chorava querendo mamar a cada duas horas, dia e noite. Os bicos dos seios de Michelle ficaram to doloridos que ela mal podia suportar.
Trent no conseguiu evitar uma gargalhada.
	O que h de to engraado?  Little Ed perguntou.
	Vocs dois. Puxa, vocs mudaram um bocado. Eu me lembro quando o assunto preferido era o tamanho dos seios das garotas, ou as melhores maneiras de se abrir um suti.
	Este sujeito no entende nada  Little Ed falou, balanando a cabea.  Mason, conte para ele como as coisas funcionam, por aqui.
	Rae vai cas-lo to depressa que voc nem se lembrar mais como era deixar o assento do sanitrio levantado.
	Voc tambm saiu com ela?  Trent perguntou a Mason.
	Fui o nmero um  Mason respondeu, orgulhoso.  E, se no fosse por Rae, eu no estaria feliz e satisfeito como estou hoje.
Trent inclinou-se para frente, pousando os cotovelos nos joelhos.
	Ento me digam, rapazes. Como ela consegue fazer isso?
Little Ed encolheu os ombros.
	De alguma forma, quando a gente est com Rae comea a pensar em se acomodar, amar uma mulher de verdade, construir um lar e iniciar uma famlia.
	E voc foi o nmero...
	Quatro  Little Ed completou.  Ela faz maravilhas, amigo. Seu destino est traado, agora, mas anime-se! O casamento
 a melhor coisa que pode acontecer na vida de um homem.
	No para mim.
	Especialmente para voc  Mason afirmou, convicto.
	Por que acha que inventamos aquela histria de aposta? Little Ed perguntou.  S queremos v-lo to feliz quanto
ns, amigo.
	Sou um solteiro muito feliz, e pretendo continuar assim.
	Trent, voc no faz ideia do que Rae  capaz. Est brincando com fogo, companheiro  Mason alertou-o.
	Para mim, isso tudo  apenas um meio rpido de tir-la da minha casa  Trent falou.  E, j que tenho de ficar na cidade durante alguns meses,  melhor que seja na companhia de uma bela garota. Ser interessante para passar o tempo.
Little Ed abafou um risinho de escrnio.
	Isso  o que voc pensa  murmurou.
Vendo que de nada adiantaria discutir com eles, Trent decidiu obter alguma informao valiosa.
	Todos ficam me dizendo o quanto Rae  maravilhosa, mas doze sujeitos perderam a chance de casar com ela. Eu pressinto que vocs esto me escondendo alguma coisa. O que h de errado com ela?
	Nada!  os dois responderam, de uma s vez.
	Ora, no pensem que me enganam...
Os amigos olharam um para o outro, em dvida.
	Nunca discutimos isto antes...  Mason comeou, hesitante.
	Rae  uma garota incrvel  Little Ed acrescentou.  Mas...
	Mas... o qu?  Trent insistiu.  Escutem, amigos,  a minha casa que est em jogo, aqui. Preciso de toda informao que puder obter. Mason cedeu.
	Bem, digamos que a parte fsica do meu relacionamento
com Rae foi algo... unilateral  confessou.
Little Ed concordou:
	Comigo, tambm. Acho Rae muito atraente, mas nunca tivemos nenhum contato fsico, embora eu quisesse... e muito. Mas ela nunca demonstrou sentir o mesmo por mim.
Trent mal podia acreditar no que ouvia. Era um homem experiente e sabia que, quando danara com Rae na festa de casamento, ela lhe respondera de modo bastante sensual. Isto, sem mencionar o impulso que sentira de beij-la, quando se despediram. No, no havia nada de errado com ela, neste departamento.
Seria possvel que ele desvendara o mistrio da "Fazedora de Noivos"?, perguntou-se. Talvez, sem saber, ela submetera aqueles sujeitos a um castigo de castidade e, depois disso, eles casaram com a primeira garota que encontraram. Ele sorriu, satisfeito.
	S porque nenhum de vocs conseguiu lev-la para a...
Little Ed interrompeu-o, rpido e brusco:
	Veja l o que vai dizer, amigo. Ningum fala de Rae nestes termos, por aqui.
Trent achou melhor evitar uma discusso, mesmo porque Little Ed era trs vezes maior do que ele.
	Tudo bem  disse, apaziguador.  Vamos esquecer este assunto.
	H s mais uma coisa que eu gostaria de acrescentar, enquanto temos esta conversinha amigvel  Little Ed falou.
 No gosto muito da ideia de voc estar morando na mesma casa que ela.
	Ei, espere um pouco  Trent defendeu-se.  Isto foi ideia dela. E no se esquea que aquela casa  minha.
	S quero que saiba que se voc machucar aquela garota, eu vou machucar voc, Trent  Little Ed avisou-o, num tom que no deixava dvidas.  E bastante.
Naquele momento, um dos bebs comeou a chorar no carrinho. Mason levantou-se e foi espiar.
	Est na hora da comida  disse, resignado. Pegou o carrinho e preparou-se para voltar para casa.  Boa sorte, Trent. Voc vai precisar  disse, em despedida.
Little Ed aproximou-se do amigo.
	Provavelmente voc no entende como ns nos sentimos a respeito de Rae  disse.
Pelo contrrio, Trent achava que entendia muito bem os instintos protetores que Rae despertava em Little Ed. Afinal, acontecia o mesmo com ele.
Little Ed estendeu-lhe a mo.
	Amigos, como sempre?  perguntou.
	Ora, no seja to bobo quanto parece  Trent brincou.
Little Ed mostrou-se visivelmente aliviado.
	Voltamos a nos encontrar no prximo domingo, ento.
	Conte comigo.
A caminho de casa, Trent parou na padaria e comprou as rosquinhas, exatamente como sabia que faria. Enquanto andava, teve tempo de pensar sobre tudo o que os amigos haviam dito. Agora sabia que Rae no era o tipo de garota que se atirava na cama com qualquer homem que namorava, mas isto tambm no era novidade. J havia percebido, desde o instante em que danara com ela. O que o deixava mais frustrado era o fato de se sentir to atrado por ela, mais do que jamais se sentira por qualquer outra mulher. E tinha sorte de ela parecer estar correspondendo a esta atrao.
Rae saiu do banho e, ao sentir o aroma de caf fresco, concluiu que Trent havia voltado. Na noite anterior, ouvindo-o subir a escada para o sto, havia percebido que ele aceitara sua sugesto de permanecer na casa com ela. E, agora, tinha de se acostumar com a realidade dos fatos.
Encontrou-o sentado na cozinha, lendo o jornal de domingo. Os braos apoiados na mesa eram musculosos e bronzeados. Ele podia ser um alto executivo, mas certamente no adquirira aquele bronzeado num escritrio, rodeado de papis. Rae sabia que ele jogara como atacante no time de futebol da escola, e calculou que continuava praticando esportes: os movimentos graciosos e rpidos, a prontido e a competitividade que ele demonstrava eram as marcas de um atleta natural.
Contendo um impulso de passar os dedos por entre os cabelos loiros, Rae concluiu que no poderia ficar parada na soleira da porta a manh inteira, simplesmente admirando-o. Deu um passo para frente e cumprimentou-o com um simples "ol".
Trent ergueu os olhos da pgina de classificados e enviou-lhe um sorriso que quase a fez perder o flego.
	O caf est pronto  disse, fazendo um gesto para a cafeteira e a caixa de rosquinhas sobre o balco.
Rae serviu-se e recostou no balco. Trent tornou a olh-la e puxou uma cadeira.
	Sente-se  falou.
Ela obedeceu, sorrindo consigo mesma ao pensar em como ele conseguira dar um tom gentil  palavra, ao invs de faz-la parecer como um comando a um cachorrinho. Pegou a pgina de esportes do jornal e comeou a ler, enquanto comia. Quanto menos conversassem, mais fcil sria lidar com o efeito que ele lhe provocava.
Porm, conforme o silncio se prolongava, Rae se sentia ainda mais inquieta. Quando levantou os olhos do jornal, percebeu que ele a observava, fitando-a fixamente. Fale com ele, ordenou a si mesma, exasperada. Tente se controlar, e pense no seu futuro!
	Precisamos organizar um esquema de dias para sairmos juntos  disse, afinal. 
	Esquema?  ele repetiu, surpreso.  Era assim que voc fazia, com os outros rapazes?
Rae franziu a testa.
	Bem, no exatamente  admitiu. Afinal, ela no tivera a inteno de transformar os outros em noivos. Sara com eles apenas porque estava interessada.
	Ento, como  que funcionam as coisas?
	No existia nada programado, ns apenas... nos encontrvamos. As vezes eu pensava em alguma coisa para fazer, s vezes eles sugeriam.
	E no seria um pouco arriscado mudar seus mtodos agora?  ele perguntou.
No, ela pensou. No caso de Trent seus mtodos teriam de ser totalmente modificados.
	 claro que no precisaremos agendar as datas para sairmos juntos pelos prximos trs meses  disse.  Mas precisamos nos certificar de que teremos tempo suficiente para ficarmos juntos.
Trent sorriu.
	Rae, estarei  sua disposio. Vou ficar aqui durante trs meses, com exceo de algumas viagens ocasionais a Boston. Quando voc quiser sair,  s me avisar.
Rae no hesitou. Afinal, estava naquele jogo para vencer.
	Que tal tera-feira de manh?
	Tera-feira de manh? No me parece um "horrio nobre" para se namorar.
Ela sabia disso, mas tinha um plano. Alm do mais,  luz do dia seria mais fcil lidar com a atrao que sentia por ele.
	As nove e meia. Acha que pode?
	Creio que sim. Vamos nos encontrar na minha casa ou na sua?  ele indagou, sorrindo.
Ela no pde evitar de corresponder ao sorriso.
	Pode parecer tolice lhe perguntar, desde que a casa  sua, mas voc j teve a chance de v-la?
Trent levantou-se e colocou a xcara na mquina de lavar loua.
	Dei uma olhada l fora, hoje de manh  respondeu.  Voc fez um timo trabalho, Rae. O jardim nunca esteve to bonito desde que meus avs moravam aqui.
	E por dentro, voc j olhou?
	Era o que estava prestes a fazer. Quer vir comigo?
Comearam pelo cmodo onde Rae montara seu salo de beleza, o Styles. Trent tinha de admitir que estava agradavelmente surpreso. No tinha certeza do que esperava encontrar, quando ficara sabendo que havia um salo de beleza em sua casa. Talvez mveis de metal, espelhos e luzes fortes. Mas, agora, descobria que Rae tivera a sensibilidade de preservar o charme do cmodo, tirando proveito do piso de madeira e das enormes janelas. Havia uma pia num dos cantos e, sendo que ela trabalhava sozinha, apenas uma cadeira para o corte de cabelos. A sala de espera, porm, parecia com a antiga sala de estar de sua av, o que de fato era. Rae acrescentara algumas plantas e alguns toques prprios, mas no todo, quando ela se mudasse, pouco teria de ser feito para restaurar a casa. Trent teve o cuidado de manter o ltimo pensamento consigo mesmo.
	Est muito bonito, aqui  disse, simplesmente.
As palavras dele significaram muito para Rae, que tinha um orgulho enorme do seu salo, e ficava satisfeita ao saber que seus esforos no haviam passado em branco.
Acompanhou-o pelo restante dos cmodos do andar trreo, todos muito limpos e arrumados. Rae amara aquela casa desde a primeira vez em que a vira, e a nica coisa que a incomodava era o fato de o banheiro ficar no andar de baixo, embora isto no fosse muito incomum numa casa daquela idade.
	Quando voc herdou a casa?  perguntou a ele.
	Meu av faleceu quando eu era calouro na universidade, e minha av, alguns anos depois. Eram os pais do meu pai, e eu o nico neto. Por vrias razes, decidiram deixar a casa diretamente para mim.
Uma das razes era que o nico filho do casal havia partido de Emerson logo aps o divrcio, e a outra era que ambos sabiam o quanto Trent amava a casa.
	Foi ento que minha me decidiu abrir a loja de presentes aqui  ele acrescentou.
Subiram para o segundo andar.
	Maureen contou-me que a casa permanece quase da mesma forma como era quando seus avs moravam aqui  Rae comentou.
	 verdade.  Trent abriu uma porta, deu passagem a Rae e recostou no batente, com os braos cruzados.  S que algum investiu muito mais do que apenas tempo nos jardins e na pintura dos cmodos. No me lembro de ter visto nenhuma nota, para qualquer uma destas despesas.
	Pareceu-me muito pouco, desde que eu estava morando aqui sem pagar aluguel  ela explicou.
	Mas pelo acordo que voc fez com minha me, teria de cuidar somente dos jardins. No precisava ter gasto seu dinheiro com a parte de dentro da casa.
	Eu adoro este lugar, Trent. Desde a primeira vez em que estive aqui, soube que era onde desejaria morar para sempre.
Mas no vai, ele pensou, com uma pontada de frustrao. De uma coisa ele tinha certeza: depois de ver o quanto ela amava a casa, no seria fcil ganhar aquela aposta. Uma dor desconhecida emergiu de dentro dele.
Foram para o cmodo seguinte e Rae aproximou-se da janela, inclinando-se para olhar o jardim.
	Acredito que esta casa est repleta de boas lembranas disse.  Ouvi dizer que seus avs eram pessoas maravilhosas.
Trent postou-se ao lado dela.
	Pois o que voc ouviu est correto  afirmou.
Rae lembrou-se que Maureen lhe contara que Trent passava muito tempo com os avs quando criana, pois se sentia muito mais feliz ali do que em sua prpria casa. No era segredo, em Emerson, que o pai de Trent era um namorador inveterado. Depois do divrcio, Maureen passara por maus bocados, at conseguir superar a dor e prosseguir com sua vida. Mas no guardava ressentimentos do ex-marido, e certa vez dissera a Rae que ele jamais deveria ter-se casado, pois simplesmente no era o tipo de homem que suporta compromissos de famlia.
Rae imaginou como teria sido para Trent ter um pai assim. At o momento, no havia pensado nisso atravs do ponto de vista de um menino que fora produto de um casamento infeliz. E sentiu que uma nova e perigosa onda de ternura a invadia, por aquele homem que seria o dcimo-terceiro a deix-la, fosse ou no para se casar.
E ele a abandonaria muito mais facilmente do que os anteriores, que haviam sentido pelo menos um pouco de afeio por ela. Trent aceitara sair com ela apenas por causa da aposta, para que pudesse vencer e conseguir a casa de volta. E, depois de tudo terminado, se afastaria sem sequer olhar para trs.
Mas desta vez, ela prometeu a si mesma, tudo seria diferente. Desta vez, estaria preparada para o abandono.

CAPITULO IV

Amanh de tera-feira estava agradvel o bas-Ltante para que a capota do conversvel de Trent ficasse baixada, enquanto rodavam pela estrada na di-reo de Connecticut.
	Obrigada por ter se oferecido para virmos com seu carro  disse Rae.
	 um prazer  Trent respondeu, descobrindo o quanto estava apreciando o passeio. Havia tempos que no dirigia pelas estradas quase desertas do interior e, alm disso, no tinha certeza se o carro dela chegaria to longe.
Rae recostou a cabea no assento e massageou os msculos tensos da nuca.
	Tudo bem com voc?  ele perguntou, olhando-a de relance.
	Est, sim. Acho que dormi de mau-jeito.
Na verdade, nas ltimas trs noites, Rae estivera dormindo no sof do salo de beleza. No era a maneira mais confortvel de se passar a noite, mas ela se sentia mais segura ali do que em seu quarto do segundo andar, com Trent na casa. No haviam discutido as acomodaes e, pelo menos no que se referia a ela, quanto menos fosse dito, melhor seria. Reparou no sinal da estrada e instruiu:
	Pode entrar na prxima  esquerda.
Trent mantinha os olhos fixos  frente.
	Como vo seus negcios?  perguntou.
	O primeiro ano foi um pouco difcil, at que eu conseguisse uma clientela. Mas as coisas esto melhorando e fico ocupada a maior parte do tempo.
	Est indo bem, ento.
	Digamos que estou dentro do plano que elaborei, quando iniciei o negcio.
	Imagino que o fato de ser obrigada a mudar-se em trs meses ir atrapalhar estes planos.
Rae deu uma risadinha.
	Se voc fosse sua me, esta seria a parte onde eu teria de comear a mentir.
	Por qu?  ele indagou, ligeiramente chocado.
Ela suspirou.
	Eu trabalhava num grande salo de beleza. Tinha um pequeno capital, mas nenhuma chance de obter o tipo de emprstimo que me ajudaria a iniciar meu prprio negcio, e tampouco conhecia ningum. Depois que meu pai morreu um velho amigo dele, Hal Peters, apresentou-me  Maureen.
	E ela decidiu ajud-la.
	Exatamente. Maureen deu-me todo apoio que eu precisava. Insistiu que o cmodo em sua casa era o lugar ideal para um salo de beleza e, desde que voc ficaria fora por cinco anos, no haveria o menor problema. Alm disso, o fato de ter um salo de beleza no mesmo local que a loja de presentes seria bom para ns duas, pois faramos companhia uma a outra. Foi ideia minha fazer a manuteno do jardim e da casa em troca do aluguel, que eu no poderia pagar. Sua me  uma pessoa maravilhosa, Trent. Possui uma capacidade infinita de compreender e ajudar os outros.
A expresso dele manteve-se impassvel.
	Enquanto que eu sou inflexvel e duro.
	E mesmo? No o conheo o bastante para saber disto. Mas sei que voc  um homem de negcios, portanto vou responder sua pergunta nestes termos. Quando abri meu salo, coloquei nele tudo o que eu possua. Foi um risco, porm um risco calculado, no qual eu tinha alguma chance de ganhar, caso um detalhe importante continuasse ocorrendo.
	O fato de no pagar aluguel durante cinco anos?
	Acertou na mosca.
	E como voc est agora, passados estes trs anos?
	Dentro do prazo que me dei, como j lhe disse. Paguei todas as minhas dvidas, incluindo as contas do hospital do meu pai e do meu equipamento. Mas  s. Em dois anos, terei juntado o suficiente para dar entrada numa casa prpria.  A casa dele, pensou.
	Mas voc deve ter outras opes, se tiver de sair agora.
Rae balanou a cabea.
	No h outro lugar, em Emerson, onde eu possa morar e ter o salo. E simplesmente no posso arcar com dois aluguis.
	Quem disse que voc precisa permanecer em Emerson?
	Eu disse  ela afirmou.  Em primeiro lugar, se eu mudar de cidade terei de comear tudo outra vez, at conseguir uma clientela fixa. E isto  algo bastante difcil e complicado. Alm disso, eu no teria condies de fazer uma mudana e pagar aluguel em outro lugar. Porm, mais importante do que tudo, eu adoro aquela cidade. Sinto-me como se tivesse nascido em Emerson e no quero partir.
Rae no se importava de deixar sua situao bem clara para Trent, mesmo porque ele saberia de tudo em poucos meses, se ela perdesse a aposta. Caso isto acontecesse, ela seria obrigada a fechar o salo, vender tudo o que tinha e voltar  estaca zero.
	Ento, mudar-se da minha casa significa que voc ter de trabalhar para outra pessoa.
Rae esboou um sorrisinho. Ele era esperto o bastante para adivinhar o seu futuro.
	Exatamente. E, melhor do que ningum, voc deve saber a enorme diferena que existe entre ser empregado e patro. Pode entrar  esquerda.
Trent fez a curva suavemente, enquanto falava, num tom distrado:
	Quer um emprego no meu hotel?
Ela riu.
	No. Quero que voc se case.
	Para que voc possa continuar com seu negcio?
	E comprar sua casa.
Ele no desviou os olhos da estrada.
	Quer dizer que a opo de compra que me pediu, para daqui a dois anos,  para valer?
	Ah,  claro que sim. Eu quero muito aquela casa  Rae afirmou, determinada.
Para Trent, ficou evidente o quanto Rae considerava importante ganhar a aposta. Aps alguns minutos de silncio, ele perguntou:
	Voc sabe por que estou querendo vender a casa, Rae?
	Sei, sim. Quer vend-la para comprar seu hotel.
	Como voc, tambm quero ser meu prprio patro.
	Como eu, voc deseja um lugar que seja s seu  ela corrigiu.  Voc quer seu hotel e eu quero sua casa. Esta aposta nos d a chance de concretizarmos nosso sonho.
	No, Rae  ele a lembrou, em voz baixa.  Apenas um de ns estar concretizando seu sonho.
Ela virou o rosto para a janela. No queria continuar falando naquele assunto. Depois de um momento, voltou a falar com uma animao que no sentia:
	Aqui estamos!
Trent dirigiu pela entrada de veculos e estacionou diante de uma casa parecida com aquela da histria de "Joo e Maria". Ao descer para abrir a porta para Rae, reparou que havia vrios nibus escolares no estacionamento.
	Que lugar  este?  perguntou.
	Um museu de brinquedos  ela respondeu, encaminhando-se para a entrada principal com Trent ao seu lado.
	E esta a sua ideia para um encontro?  ele indagou, sinceramente surpreso.
	Estamos passando o tempo juntos, e  isso que conta ela retrucou, com um sorriso divertido.  Encontros no precisam ser sempre para jantar ou para um show, sabia?  impressionante onde nossa imaginao pode nos levar.
	Eu sei. Neste exato momento, estou imaginando voc me ameaar com uma espingarda, para que eu concorde em me casar com algum.
	Confesso que  uma tentao. Especialmente agora, que voc sabe o quanto estou contando em ganhar esta aposta.
Entraram no museu e uma jovem no balco da recepo cumprimentou Rae pelo nome. Ela apresentou-a a Trent.
	Voc est servindo de guia hoje, Phoebe?  Rae perguntou, em seguida.
A garota assentiu, respondendo:
	No horrio de sempre, portanto vocs ainda tm meia hora.
	Ento, vamos  disse Rae, pegando Trent pela mo.  Comearemos pelo terceiro andar, e nos encontramos com o grupo aqui embaixo.
O terceiro andar estava repleto de bonecas e casinhas de bonecas. Para sua prpria surpresa, Trent descobriu que achava tudo divertido e interessante. Entretanto, tinha de admitir que boa parte deste interesse era despertado por Rae, que olhava tudo, fazendo comentrios e contagiando-o com o prazer de admirar os objetos to antigos e delicados.
	Voc gosta mesmo destas coisas, no ?  ele perguntou, quando j estavam no segundo andar.
Rae desviou os olhos da intricada miniatura de um carrossel que estava admirando e encarou Trent.
	Adoro  confessou.  A Histria  uma das minhas paixes. 
Trent guardou a informao para o futuro. Qualquer detalhe sobre Rae poderia ajud-lo a ganhar a aposta.
	Anunciaram que o tour estar comeando em cinco minutos. Isto tambm faz parte do nosso encontro?
	Ah, sim, o tour...  ela disse, distrada, com a ateno totalmente voltada para os brinquedos de madeira expostos numa vitrine.
Finalmente reuniram-se ao grupo de turistas e estudantes, fazendo a volta completa pelo museu. Terminada a visita, Phoebe veio conversar com ela e Trent. Quando ele lhe perguntou sobre o trenzinho exposto na sala ao lado, a guia o levou at l para explicar com mais detalhes. Discretamente, Rae foi para o lado oposto do primeiro andar, onde havia uma exibio de antigos desenhos animados.
As coisas no poderiam ter sido melhores, pensou enquanto espiava pela porta e via Trent de costas para ela, concordando com algo que Phoebe lhe dizia. Rae fechou os olhos e recostou-se no batente, massageando a nuca dolorida. Por um instante, chegou a perder a noo de tempo e espao, mas voltou rapidamente ao presente quando pressentiu a presena de Trent junto a si. Mesmo com os olhos semicerrados, no tinha dvidas de que ele estava ali, bem atrs dela.
Ento, incrivelmente, sentiu as mos dele massagearem sua nuca, e foi maravilhoso. Permaneceu parada na penumbra, de costas para ele, sentindo toda tenso desaparecer sob o calor e suavidade dos dedos dele.
	No ficaria neste estado se dormisse numa cama, em vez do sof no seu salo  ele murmurou, num tom quente.
	Eu no sabia que voc andava me vigiando  ele retrucou, tambm num sussurro.
	Voc me convidou para ficar na casa para que eu no precisasse dormir num sof. No entanto,  exatamente o que est fazendo  ele tornou.  Se tem medo de que eu a ataque durante a noite, fique sabendo que no  o meu estilo.
Instintivamente, Rae soube que ele estava sendo sincero. Um homem como aquele, atraente e exalando charme por todos os poros, no precisaria "atacar" uma mulher, se quisesse companhia na cama. Bastaria usar as mos como estava fazendo agora, e qualquer mulher se entregaria de bom grado. Antes que isto acontecesse com ela, Rae falou:
	Voc e Phoebe tiveram uma conversa agradvel?
	Ah, sim. Ela sabe um bocado sobre trenzinhos de brinquedo.  As mos dele continuavam produzindo a sensao mgica.
Que droga!, Rae pensou. Ser que ficaram falando sobre trenzinhos o tempo todo?
	Se houver mais alguma coisa que voc queira conversar com ela, fique  vontade  disse.  No precisa se preocupar comigo.
Trent deslizou as mos da nuca para os ombros de Rae, e envolveu-a num abrao solto. Ela podia sentir a respirao quente contra seu ouvido, quando ele murmurou:
	Rae, eu sei muito bem o que voc est tentando fazer.
	O qu?  ela retrucou, enrijecendo involuntariamente ao sentir os braos dele em torno de si.
	No banque a inocente. Sei reconhecer quando me aprontam uma armadilha.
Ela desistiu de fingir.
	No deu certo?  perguntou, ansiosa.
Ele riu, baixinho.
	Se deu certo? Bem, foi um pouco embaraoso para ns dois, mas felizmente sua amiga percebeu a "jogada" to depressa quanto eu. Ela pediu-me para lhe dizer que est namorando um professor do segundo grau, que conheceu h duas semanas, aqui mesmo no museu.
	Droga...  Rae murmurou. Phoebe era inteligente, divertida e bonita. Tinha certeza de que Trent ficaria atrado por ela, se algum no tivesse chegado primeiro.
Trent baixou ainda mais a voz, quando voltou a falar:
	Para que mal-entendidos como este no tornem a acontecer, deixe-me lhe dizer uma coisa: s existe uma mulher que me interessa neste momento, e nos prximos trs meses. Voc sabe quem , Rae?
Rae tinha quase certeza de quem seria, mas balanou a cabea em negativa, sem confiar na prpria voz. Era impossvel at pensar, sentindo o corpo dele cada vez mais prximo, roando contra o seu.
	Esta mulher  voc, Rae.
Naturalmente ele queria dizer que ela era a mulher que deveria sair de sua casa, e que estava lhe dando muito trabalho no momento.
	Sim, sem dvida estou tornando sua vida bem complicada 	ela disse, tentando dar um tom de brincadeira  voz.
	Bem, esta  uma forma de se colocar as coisas.
Trent pressionou um pouco mais o corpo contra o dela e se afastou, concluindo que Rae no fazia ideia do quanto estava complicando sua vida.
	Voc tambm no est transformando a minha vida num mar de rosas  ela retrucou, virando-se para encar-lo.  Se voc se recusa a considerar a possibilidade de sair com outra garota, como conseguirei lhe arranjar um casamento?
	Voc no vai conseguir  ele disse, com um meio sorriso pairando nos lbios.   esta a questo principal.
	Pois espere para ver.  Embora ele estivesse levando tudo na brincadeira, aquele assunto era realmente importante para ela. Precisava arranjar algum com quem ele se casasse!
	Voc est livre na quinta-feira  noite?  indagou distraidamente, enquanto passavam diante de um castelo em miniatura, cercado de minsculos cavaleiros da poca medieval.
	Por voc, minha donzela, estarei livre a qualquer momento. Seu cavaleiro aguarda as ordens.
	Ento ficamos combinados para quinta-feira  disse Rae, esforando-se para no sorrir.  E no pense que me engana com esta imitao de cavalheirismo. Voc no  o tipo de prncipe sobre o qual as histrias romnticas foram baseadas, disso eu tenho certeza. Agora vamos embora, tenho de abrir o salo daqui a uma hora.
Trent sabia que nao adiantava discutir, pois sem dvida Rae era uma mulher determinada, que sabia o que queria. Entretanto, ele tambm era determinado. E estaria pronto para destruir quaisquer outros planos que ela tivesse para coloc-lo no caminho do altar.
Nos dias que se seguiram, Trent descobriu muito mais coisas a respeito de Rae, e tudo confirmava sua primeira impresso sobre ela. E, pelo que sabia, todos em Emerson compartilhavam da mesma opinio e no hesitavam em lhe dizer, em qualquer oportunidade que tivessem: ela era gentil, generosa, e um exemplo de virtudes.
Porm, ele nem precisava que os outros lhe falassem sobre ela. Afinal, estavam vivendo juntos, num contato dirio, quase ntimo. ntimo demais, at. ntimo o bastante para que ele ouvisse o suave suspirar, quando ela dormia no cmodo logo abaixo do seu. O suficiente para admirar-lhe o sorriso caloroso dezenas de vezes por dia, aspirar-lhe o perfume quente depois que ela trabalhava horas no jardim, ouvir o riso sonoro, sentir
a doce amizade.
Rae realmente gostava dele. Ele, o homem que iria atir-la para fora da casa e arruinar seus negcios e sua vida. Mesmo sabendo que tinha seus direitos, Trent no conseguia evitar uma pontada de culpa. Mas, ento, lembrava-se de que ela havia concordado com a aposta, mesmo tendo sido alertada de que seria muito difcil vencer.
E, para ser sincero, Trent tambm gostava dela. Adorava ouvi-la cantar no chuveiro, a delicadeza com que as mos dela seguraram as suas no dia em que retirou-lhe um espinho, a maneira como acordava de manh, sonolenta e distrada.
Trent no queria pensar muito em por que comeara a deixar-lhe bilhetes na mesa da cozinha, dizendo onde fora e a que horas pretendia voltar. Ou por que preocupava-se em passar na mercearia, antes de ir para casa, e fazer as compras para ela. Ou por que demorava tanto para pegar no sono, ultimamente.
Portanto, no pensava. A ^uinta-feira chegou e ele tinha outras coisas em mente. Depois daquela primeira vez em que haviam sado juntos, estava preparado para qualquer coisa, at mesmo para um encontro que iniciaria no posto de gasolina de Big Ed. Pois foi onde Rae lhe pediu para encontr-la, num bilhete que deixou pendurado na porta da geladeira. Rindo consigo mesmo, Trent saiu de casa.
	Tem certeza de que ela vir?  Rae perguntou a Little Ed, com a voz trmula de ansiedade. Contava para que tudo desse certo, naquela noite.
	 claro que sim. Ela vem encher o tanque e checar o leo toda quinta-feira, s seis e meia em ponto.  a hora que sai do trabalho.
	Otimo.  Rae relaxou um pouco.  Agora, no esquea:  voc quem vai apresent-los. No pressione, no force nada. Apenas faa as apresentaes. Se Trent no sair com ela, diga-lhe para me encontrar no banco.
Little Ed balanou a cabea.
	No sei o que voc est tramando, Rae, mas se estiver preparando uma armadilha para o velho Trent, eu lhe desejo boa sorte. Desde os tempos de escola, sempre que algum tentava lhe pregar uma pea, ele j estava um passo  frente.
Ela riu.
	Vou me lembrar disso, se algum dia me sentir tentada a colar um papel nas costas dele  disse.  Mas isso  realmente importante, Little Ed! Obrigada pela sua ajuda.  Subiu na bicicleta e foi pedalando pela rua Principal, na direo do banco.
L chegando, fez questo de ser atendida pela linda funcionria de cabelos escuros e exticos olhos verdes. Entregando-lhe um recibo de saque, Rae falou:
	Oi, Jane! Ser que me faria \im favor?
	Ora,  claro que sim, Rae.
	Voc conhece Trent, o filho de Maureen?
Jane sorriu, contando o dinheiro de Rae.
	Quem no conhece, e quer agarrar, o solteiro mais cobiado da cidade? O seu solteiro, se no me engano.
Rae guardou as cdulas num envelope.
	. No! Quero dizer, ele  o solteiro mais cobiado da cidade, mas no  meu. Est aberto s possibilidades.
	Ento voc est realmente tentando cas-lo com algum?
	Evidente que sim. Preciso ganhar aquela aposta  Rae respondeu.  Ele vai passar por aqui mais tarde. Voc poderia entregar-lhe este envelope?
	Tudo bem, Rae. Ele est mesmo aberto s possibilidades?
	Com toda certeza. Faa uma tentativa. Mas se ele se esquivar e quiser saber onde estou, diga para me procurar na biblioteca, aqui ao lado.
Rae fez o mesmo na biblioteca e, depois, na loja de bebidas do outro lado da rua, na confeitaria da me de Mason, na mercearia e na lanchonete. Nem podia acreditar em sua boa sorte. Conforme calculara, todas estariam trabalhando  noite e todas se dispuseram a lhe prestar um favor. Enquanto pedalava de volta para casa, refletia em quantos favores ficaria devendo, mas valeria a pena. No esperava ver Trent to cedo, e talvez nem o visse naquela noite... se a sorte continuasse do seu lado.
Estava quente, ao anoitecer, e Rae serviu-se de um copo de ch gelado e foi para a varanda. Sentou-se no velho banco de balano e o movimento suave a fez cochilar. Despertou subitamente, ao sentir algum sentando ao seu lado. Abriu os olhos e deparou com Trent, trazendo um saco de papel nas mos e um sorriso nos lbios.
	Tive uma noite muito interessante  ele disse, deixando o saco de papel no cho da varanda.  Est calor, no acha?
Rae ofereceu-lhe o seu copo de ch. Observando-o beber um longo gole, sentiu um estremecimento com aquela doce intimidade.
	Ah... Assim est melhor. Agora, como eu estava dizendo, creio que este nosso segundo "encontro" superou o primeiro. Quer ouvir o que aconteceu?
Ela sorriu.
	E claro que sim.
Trent estendeu o brao no encosto do banco, atrs dela.
	Bem, em primeiro lugar, deixe-me lhe dizer o quanto estava ansioso em ver o que voc iria preparar para hoje. E soube que estava encrencado quando, ao invs de voc, encontrei Little Ed me esperando no posto de gasolina. Perguntei a ele onde voc estava, e ele me segurou ali por dez minutos, contando-me o quo alto Melissa  capaz de arrotar, depois que mama. Ento, de repente, apareceu uma mulher para encher o tanque do carro, e Little Ed teve de nos apresentar.
Rae no se conteve, e interrompeu:
	O que achou dela?
	Normal.
	Normal?  Rae surpreendeu-se. Candi no podia ser considerada "normal". Era linda, do tipo que pra o trnsito.
Trent encarou-a, ligeiramente divertido.
	Prosseguindo: finalmente Little Ed me disse para encontr-la no banco... onde recebo um largo sorriso de boas-vindas de Jane, que me entrega um envelope com dinheiro e me manda para a biblioteca.
	Voc conhecia Jane?
	Frequentamos a escola juntos. Ela foi a primeira garota da nossa classe a usar maquiagem. Acho que usa lentes de contato, para ter os olhos daquela cor.
	Ela  muito bonita  Rae afirmou, convicta.
	Concordo. E tambm a irm gmea dela, Janet, que estava trabalhando na biblioteca, esta noite. Ela me entregou uma fita de vdeo e mandou-me para a loja de bebidas, no outro lado da rua.
Trent abaixou-se e pegou a fita no saco de papel.
	Este era meu filme favorito, quando eu era garoto  disse, olhando para Rae.  Foi mesmo uma coincidncia que, entre tantas fitas de vdeo existentes na biblioteca, voc tenha escolhido exatamente este.
Rae encolheu os ombros, tentando parecer inocente. Ento, Trent colocou uma embalagem com seis latinhas de cerveja no colo dela.
	Esta tambm  minha cerveja preferida  ele disse.  E Rita j havia deixado separado este pacote, sobre o balco da loja de bebidas, quando entrei.  Abriu uma lata, bebeu um gole e passou-a para Rae.
Rae deixou as outras cinco latinhas no cho, antes de beber.
	 muito boa  falou.  E Rita  um amor, no acha?
	Sem dvida. Ela me mandou para a confeitaria, onde a prima de Mason, Carleen, entregou-me estes pezinhos recheados, que haviam acabado de sair do forno.  Trent colocou o pacote com pezinhos no colo de Rae, juntamente com um outro.
 E disse-me para ir at a mercearia, onde Dora me esperava com uma poro de salame fatiado.
	Parece delicioso  Rae murmurou, abrindo os pezinhos e colocando salame dentro deles, antes de dar um para Trent.
	No  em qualquer lugar do mundo que se pode achar um sanduche de salame to bom  ele comentou, com um suspiro, depois de dar uma mordida.
Rae comeu o sanduche e, percebendo que Trent a olhava sorrindo, indagou:
	E depois, o que aconteceu?
	Depois, isto  ele respondeu, mostrando-lhe um copo de papel fechado com uma tampa.  Na lanchonete, V/anda presenteou-me com um frap de chocolate.
Trent retirou um canudinho de plstico de dentro do saco, colocou-o no copo e passou-o para Rae. Ela provou o refresco e fechou os olhos, deliciada.
	Humm... Est timo!
Ele comeou a rir.
	O que foi?  Rae perguntou.  O que h de to engraado.
	O que foi? Voc armou tudo isso, praticamente me atirando aos ps de todas as garotas solteiras da cidade, e ainda pergunta o que h de engraado!  Trent enxugou as lgrimas de riso dos cantos dos olhos e segurou o queixo de Rae, obrigando-a a encar-lo.  Acho que a casamenteira finalmente encontrou seu preo mais difcil.
	No sou casamenteira!  ela protestou, defensiva.  Apenas quis lhe dar a oportunidade de conhecer as moas da cidade.
Ele a ignorou.
	Sabe, seu trabalho de casamenteira poderia ter sido muito mais fcil se voc me mantivesse sentado em seu salo, observando-a cortar os cabelos de cada provvel noiva desta cidade.
	Pare de me chamar de casamenteira!  ela explodiu, irritando-se ainda mais ao perceber que ele estava se divertindo.  Voc est sendo teimoso. E eu s estou tentando ter uma chance justa na aposta.
	Quem est sendo teimoso? Se no me engano, deixei bem claro que nenhuma tentativa de me empurrar para outras mulheres iria funcionar.
	Ainda no achei a garota certa,  tudo  Rae defendeu-se, resoluta.
	E nem vai achar  Trent assegurou-lhe.  J no lhe disse que voc  a nica que me interessa?
Ela girou os olhos para o alto.
	De qualquer forma, agradeo o trabalho que teve para descobrir todas as minhas coisas preferidas.  Trent recolheu os remanescentes do jantar improvisado e abriu a porta.  Vamos l juntou, com um sorriso e uma piscadela.  Nosso encontro ainda no terminou. Temos um filme para assistir.
Quando Trent acordou, no sbado de manh, pensou imediatamente em Rae, imaginando se j teria se levantado. Uma das coisas que descobrira, com aquela convivncia, era que ela gostava de acordar cedo. E ele tambm acordava cedo... agora.
Sua atrao por Rae aumentava a cada dia, embora ele no tivesse sequer se permitido beij-la, ainda. O que ela lhe provocava era forte o bastante para impeli-lo a fazer corridas matinais e tomar banhos frios a noite. Era algo do qual no podia, ou no queria, fugir.
Ainda assim, seria mais fcil lidar com este sentimento se no soubesse que ela tambm estava atrada por ele. Percebia isto na maneira como ela lhe sorria, s vezes, ou na eletricidade gerada quando seus corpos se tocavam por acaso, no brilho dos olhos dela, quando seus olhares se encontravam.
Trent levantou-se e foi at a janela. Entreabriu a cortina e viu-a l embaixo, no jardim. Estava ajoelhada num canteiro, descala, e um raio de sol iluminava seu corpo coberto com uma longa camisola branca. Mais parecia um anjo.
Obedecendo a um impulso, ele vestiu uma cala de malha e saiu, sem calar os sapatos.
Aproximou-se dela devagar, temendo perturb-la. Rae tinha os olhos fechados, um leve sorriso nos lbios e as mos mergulhadas na terra mida.
	Ol  ela cumprimentou-o, embora no abrisse os olhos e nem se virasse para trs.
Muitas pessoas poderiam se sentir embaraadas ao serem flagradas daquela maneira, mas no Rae. Trent permaneceu parado ao lado dela, incapaz de desviar os olhos do lindo quadro que ela formava. Ento, sem nada dizer ou perguntar, ele tambm ajoelhou-se e mergulhou as mos na terra rica e macia.
Foi uma sensao estranha e familiar, ao mesmo tempo. Muito tempo se passara, desde a ltima vez em que ele mexera naquela mesma terra, naquele mesmo jardim. Trent estendeu os dedos, fechou os olhos e entregou-se  sensao.
	Est sentindo?  ela perguntou, baixinho.
Sim, ele estava. Cerrou os dedos, como se quisesse prender a sensao para sempre.
	Est na hora...  ela falou, finalmente abrindo os olhos e encarando-o.  J  hora de as razes estenderem-se, crescerem e se firmarem.
Com um salto em seu peito, Trent percebeu que ela falava sobre as plantas quase da mesma forma que seu av costumava falar. Porm, suas palavras no tinham significado para um homem que esquecera suas razes e decidira, conscientemente, no fixar razes novas.
Rae levantou-se e esticou o corpo, quebrando o instante de magia.
	E est na hora de parar de brincar na terra  disse, rindo e estendendo-lhe a mo suja de lama.  Voc est livre amanh?
Ele tambm se levantou, limpando as mos uma na outra.
	Estou, sim. Que tipo de encontro voc est planejando desta vez?
	Na verdade, pretendo faz-lo trabalhar um pouco, antes de lhe arranjar uma noiva  ela respondeu, com os olhos reluzindo.  Est na hora de plantarmos o nosso jardim.

CAPITULO V

Nosso jardim. Trent deu-se conta de que aquelas palavras cruzaram-lhe a mente centenas de vezes, desde que Rae as pronunciara.
No tinham qualquer significado especial, dizia a si mesmo, ela simplesmente queria que ele a ajudasse a preparar a terra para o incio do vero.
Rae lhe dissera que o sbado era um dia ocupado no salo de beleza, portanto ele decidiu ficar fora do caminho, e fora da casa, atacando uma das tarefas que se propusera a fazer antes de vender a propriedade. Comearia limpando o abrigo, que costumava servir tanto de garagem como de depsito de velharias. Pretendia fazer uma triagem, separando o que deveria ser jogado fora e o que poderia tentar vender. No seria uma tarefa fcil, pois seu av era do tipo que guardava tudo, e ele prprio deixara muitas de suas coisas ali. Seria um trabalho que lhe tomaria o dia inteiro, ou talvez mais.
Entretanto, isto o manteria ocupado e no lhe permitiria ficar pensando muito em jardins... ou em razes.
Rae olhava pela janela da cozinha, vendo Trent iniciar suas atividades na garagem, enquanto comia um pozinho antes de abrir o salo. Era bvio que ele queria deixar a casa em ordem, antes de vend-la.
Uma semana j havia se passado, desde que fizeram a aposta, e ela no conseguira sair do lugar. Precisava pensar num outro plano, numa nova estratgia, mas tudo o que conseguia era pensar em como Trent estava atraente com uma simples camiseta e velhas calas jeans.
Com um profundo suspiro, admitiu a si mesma que seus sentimentos por ele estavam se tornando bastante claros. Trent penetrara em seus pensamentos, em suas fantasias, deixando-a completamente vulnervel.
Lembrou-se de como ele ficara ao seu lado, naquela manh, compartilhando com ela a sensao mgica... fora como se um invisvel lao espiritual os tivesse unido.
Balanou a cabea, tentando afastar tais pensamentos. Trent no era o tipo de homem que se dispe a criar "laos espirituais" com ningum, lembrou-se.
E ouviu a confirmao disto naquele mesmo dia, quando vrias mulheres que haviam frequentado a escola com Trent estavam no salo.
	Boa sorte, Rae  disse uma delas.  Voc vai precisar, para lidar com Trent.
	Foi o que ouvi dizer.
	Pois  a pura verdade  outra intercedeu.  Ns crescemos aqui em Emerson e sabemos que Trent  o ltimo homem na face da terra que ir se casar.
Rae manteve os olhos fixos no cabelo que estava cortando. 
	Soube que ele ganhou a reputao de ser namorador, quando morava aqui  disse.
Elas riram.
	S isso?  outra falou.  Voc sabia que ele saiu com todas as garotas da escola?
	Todas?  Rae repetiu, incrdula. Aquilo s podia ser exagero.
	Todas, incluindo cada uma de ns aqui presentes. E vou lhe dizer uma coisa: jamais me esquecerei do beijo de boa-noite que ele me deu no porto.
Uma das mulheres comeou a se abanar com uma revista.
	Naquela poca ele j beijava to bem... imagino como deve ser agora, depois de anos de prtica. 
	Pois aposto que ele deve estar melhor em tudo, agora comentou a primeira, arqueando a sobrancelha, maliciosa.
Rae continuava pensando naquela conversa quando encontrou-se com Trent na cozinha, depois de fechar o salo. Ele havia preparado sanduches e ofereceu-lhe um copo de ch gelado. Reparando que a jarra estava vazia e sabendo o quanto
ele gostava do ch, Rae devolveu-lhe o copo e pegou um refrigerante na geladeira. Em seguida, colocou a chaleira no fogo para preparar um novo estoque do refresco.
	Obrigado  ele disse, bebendo um longo gole. Levou o prato de sanduches para a mesa, e ambos se sentaram.  Como foi seu dia?  perguntou.
	No parei um minuto, mas gosto quando  assim. E o seu?
	Tambm foi cansativo. Fiquei o dia inteiro atirando coisas velhas na traseira na picape de Little Ed. Acho que metade do lixo de Emerson estava guardado naquela garagem.  Trent encarou-a, antes de acrescentar:  No sei se percebeu que quase todas as suas clientes foram conversar comigo, depois que saram do salo.
	 mesmo?  Rae endireitou-se na cadeira.  E como foi?
	Muito bem, para mim. No pedi nenhuma em casamento.  Ele deu uma mordida no sanduche.
	Voc poderia pelo menos fingir que est chateado com isso  Rae resmungou, tornando a relaxar os ombros.
	Sinto muito se voc teve tanto trabalho por nada  ele provocou-a.
	Trent Colton, no pense que elas foram conversar com voc porque eu pedi  Rae retrucou.  Se eu tivesse pensado nisso...
Ele sorriu.
	Talvez estivessem querendo avaliar as possibilidades  falou.  Voc sabia que existe uma aposta paralela na cidade, sobre qual de ns ir ganhar?
Rae fez que sim, sentindo o rosto arder. J haviam lhe contado que era o jogo mais "quente" da cidade, superando a loteria federal e o bingo da igreja.
	E como esto as apostas?  perguntou.
	De cada trs apostadores, apenas um garante que voc ir me colocar no caminho do altar.
Rae engoliu o ltimo pedao do seu sanduche.
	Isto no estaria acontecendo se voc passasse a considerar mais seriamente a possibilidade de sair com uma garota  disse, levantando-se e se encaminhando para a porta dos fundos.
	Onde voc vai?
A loja de plantas fecha daqui a uma hora. Preciso comprar as coisas que iremos usar amanh.
	Ento vamos com a picape  Trent ofereceu, saindo logo atrs dela.  Podemos deixar aquele lixo no ferro-velho e depois trazer as mudas.
	Tudo bem.
Rae tinha de admitir que ficava contente com a companhia, e com a ajuda, de Trent. Estava exausta por ter passado o dia inteiro de p, e imaginava que ele sentia o mesmo. Entrou na cabine da picape e estendeu as pernas.
	Foi muita gentileza de Little Ed emprestar-Lhe a caminhonete  comentou.
	Gentileza? Pois fique sabendo que Little Ed levou a melhor, nesta troca. Eu deixei meu carro com ele.
	Tenho certeza de que ele vai cuidar muito bem do seu "beb". Voc gosta mesmo daquele carro, no ?
	Eu prprio o montei, juntamente com meu av, naquela garagem que passei o dia inteiro limpando.
A visita a loja de plantas foi realmente divertida. Localizado no lado oposto da cidade, o lugar auto-intitulava-se de "centro de jardinagem", e tinha tudo o que Rae procurava. Enquanto Trent ocupava-se em carregar as compras para a picape, Rae foi pagar a conta.
	Que histria  esta de aposta, que ouvi dizendo?  perguntou Grace, que dirigia a loja com o marido e fora uma das primeiras pessoas a quem Rae conhecera, ao mudar-se para Emerson.
Rae contou-lhe os detalhes.
	Mas isso  loucura!  Grace exclamou, ao final.
	Eu sei. Quando paro para pensar, nem acredito no que estou fazendo.  Eu costumava ter uma vida to normal, Rae pensou, suspirando.
	No  isto que estou dizendo  Grace retrucou.  Acho que Trent est louco, se pensa que pode ganhar.  Tocou o brao de Rae e perguntou:  Veja, quem est ali com ele?
Rae olhou na direo que Grace indicava a tempo de ver Trent abraando uma mulher e, em seguida, recostar na picape e conversar com ela. Era jovem, bonita e gesticulava com entusiasmo, enquanto falava.
	No sei  respondeu.  Nunca a vi antes.
	Bem, voc  a especialista  disse Grace, entregando-lhe o troco.  Mas eu diria que ele parece bastante interessado. Vamos l, Rae. Vou apostar em voc. No desista!
Rae encaminhou-se lentamente para a picape. E reparou que Trent no estava apenas conversando banalidades com a jovem; ao contrrio, parecia realmente interessado nela.
	Ah, Rae, a est voc. Conhece Gina?  ele perguntou, ao v-la.
	No. Ol, eu sou Rae. Muito prazer.
	Oi!  A jovem, um pouco jovem demais, at, sorriu para Trent.  Vocs dois esto...?
	Plantando um jardim?  Trent apressou-se em completar.  Como foi que adivinhou?
Gina sorriu, um sorriso largo e encantador.
	Foi muito bom tornar a v-lo, Trent.
	Digo o mesmo.
A garota segurou-lhe a mo.
	Est livre esta tarde? Agora?
	Gina, olhe s para mim!  ele disse, rindo e estendendo as mos.
Rae cruzou os braos, observando a cena. Ele no se mostrara to preocupado com a aparncia quando se queixara das mulheres que foram conversar com ele na garagem.
Gina fez um gesto evasivo.
	Vai ficar com cerimnias comigo agora, Trent? J o vi bem pior do que isto.
Pelo jeito eles se conheciam muito bem, Rae pensou. Limpou a garganta e intercedeu:
	Trent, eu...
	Ora, Trent, vamos... Ser divertido  Gina insistiu.
Trent virou-se para Rae.
	Voc no se importa de dirigir a picape de volta para casa, no ? Mas no se preocupe, eu descarrego tudo amanh.
Rae mal podia acreditar. Ele iria mesmo sair com a garota, estava mesmo interessado naquela jovem, que era pouco mais do que uma menina.
	Como vai voltar para casa?  perguntou.
	Pode deixar, eu o levo para onde ele quiser  Gina ofereceu, toda contente.
Disso no tenho dvida, Rae pensou, entrando na caminhonete. Porm, tudo o que lhe restava fazer era sorrir e despedir-se.
	Foi um prazer conhec-la, Gina.
No falou nada para Tret, mas resmungou baixinho enquanto ligava o motor. As coisas estavam se complicando... no sabia se estava mais preocupada em perder a aposta ou em perder Trent.
Porm, no instante em que ia soltar o freio de mo, a porta do lado de passageiros se abriu e Trent entrou no veculo.
	Mudou de ideia?  ela perguntou, olhando-o.
	Ah, no. Sei que isto iria desapont-la demais. S me lembrei que voc pagou pelas coisas do jardim, e quero reembols-la.
Desapontar-me..., ela pensou.
	Voc j est bem crescidinho, Trent  disse, aceitando o dinheiro que ele lhe entregava.  Pode sair com quem quiser.
Ele sorriu.
	Ei, no precisa fingir comigo. Sei que deve ter ficado encantada com a ideia de eu estar saindo com outra garota.
	Ah, estou encantada, mesmo. Agora,  melhor se apressar! No quero estragar seu programa.
	Estou enganado, ou ser que percebo um tom de hostilidade na sua voz?  Trent indagou, com um sorrisinho malicioso.
	Por que eu seria hostil, se finalmente voc est demonstrando interesse por uma mulher?  Rae retrucou, ciente de que cerrava os punhos, tensa.  Isto no  hostilidade,  alegria.
	 por isso que estou me sentindo culpado  ele tornou, sempre sorrindo.  Foi divertido provoc-la, mas sei o que voc est pensando.
Rae esperava que no. A ltima coisa que queria era que Trent percebesse o quanto estava interessada nele. Ele continuou:
	No me parece justo deix-la com esperanas de que pode ganhar a aposta.
	Ora, voc ainda nem saiu do lugar e j est afirmando que no vai se casar com a garota? Como pode ter tanta certeza?
	Gina  minha prima, Rae.
Rae virou-se, com mpetos de estrangul-lo, mas Trent foi mais rpido. Saiu da picape correndo e desapareceu no carro da prima.
Na manh seguinte, Rae j estava trabalhando no jardim, quando Trent retornou da reunio semanal com os amigos na oficina de Little Ed. Logo juntou-se a ela e trabalharam sem parar a manh inteira.
	Divertiu-se bastante, ontem  noite?  Rae indagou, em certo momento.
Por menos que quisesse admitir, a verdade  que ela sentia cimes... da prima dele!
	Ah, sim. Fomos para a casa dos meus tios, pois Gina acabou de se formar na universidade e est passando uns tempos com os pais. Convidaram-me para jantar, e acabei ficando.
	Deve ser timo ter uma famlia assim, a quem voc pode visitar.
	Voc no tem?
Ela balanou a cabea, em negativa.
	Meus pais eram filhos nicos, e mame faleceu um ano antes do meu pai. Os pais de. Gina so seus parentes do lado paterno?
Rae percebeu a tenso imediata na expresso de Trent, quando mencionou seu pai. Ele assentiu, e largou a pazinha com que estivera revolvendo a terra.
	Escute, Rae  disse, encarando-a,   melhor no acalentar muitas esperanas de me ver casado... com ningum.
Isto simplesmente no ir acontecer.
Ela arrumou uma mecha de cabelos que lhe caa no rosto.
	Se isto o faz sentir-se melhor, prometo que no vou "acalentar" muitas esperanas  ela afirmou, sabendo que seria uma promessa fcil de cumprir, embora pelos motivos errados.
Pararam para almoar e, depois, iniciaram o plantio das mudas e sementes que haviam comprado. Rae decidira fazer uma pequena horta num dos canteiros do quintal, e comprara mudas de tomate. Trabalhavam mais devagar, agora, sob o sol da tarde, cada um concentrando-se num canteiro. Rae sentia-se cansada e de repente, olhando para as costas de Trent, comeou a rir.
Ele virou-se.
	O que est achando to engraado?
	Estou pensando que ns parecemos to sujos quanto algumas das minhocas que tiramos da terra.
Ele sorriu, limpando a mancha de lama do rosto com as costas da mo.
	Fale por si mesma. Eu estou to limpo quanto...
	Aquela pilha de fertilizante perto da garagem  ela completou, rindo.
	No sei por que voc tem tanta fama de ser boazinha e gentil. Comigo est sempre fazendo maldades.
	Ah, as pessoas da cidade s conhecem esta minha faceta  ela disse, com um ar resignado.  Mas, se quer saber, tampouco o conhecem muito bem.
	O que quer dizer com isso?
	No sei por que voc tem uma reputao to m.
	Ei, cuidado. Trabalhei muito para construir esta reputao. Se voc disser uma s palavra agradvel a meu respeito, tudo o que fiz ir por gua abaixo.
	Posso entender porque quer tanto proteger esta reputao. Correm rumores de que voc beija muito bem  Rae provocou-o, em tom de brincadeira.
	No so "rumores".  a pura verdade.  Trent encarou-a, arqueando a sobrancelha.  Venha at meu canteiro, e lhe provarei o que digo.
	No, obrigada. Com esta aparncia, voc est menos atraente do que uma minhoca.
Ele riu.
	No sabe o que est perdendo.
Rae voltou a ateno para a muda de tomate, batendo na terra cara firmar as razes.
	 verdade que saiu com todas as garotas da escola, no seu tempo de colgio?  perguntou.
	Quer mesmo saber sobre isso?
	Quero sim  ela respondeu, fingindo-se muito sria.   para a aposta.
	Bem, neste caso... sim,  verdade.  Trent fez uma pausa, olhando-a.  Mas s com uma de cada vez.
 
	E fez isso levado por algum tipo de desafio dos seus amigos?  ela insistiu.  Como aconteceu com nossa aposta?
	No. Eu simplesmente gostava de variar. E ainda gosto. J lhe disse, Rae, sou um solteiro convicto.
Rae continuou escavando a terra, imaginando se este status de solteiro teria algo a ver com o divrcio dos pais dele. Se tivesse vrias namoradas, em vez de apenas uma, no correria o risco de mago-las como seu pai magoara sua me.
Trent terminou o plantio em seu canteiro, levantou-se e limpou a terra das mos.
	Aposto que voc j est arrependida de ter feito aquela aposta  disse, tentando brincar.
	E verdade  ela respondeu, sincera. No fundo, gostaria que ele no fosse to radical em relao ao casamento.
Naquele instante, Rae decidiu que estava na hora de mudar sua estratgia. Nunca gostara de bancar a "casamenteira", e agora sabia que isto no iria funcionar. Ao invs disto, tentaria se concentrar em aprofundar as razes de Trent.
Pois apenas algum que estivesse firme e seguro se sentiria bem aceitando riscos. E, no importava o que ele dissesse, Rae tinha a impresso de que para Trent o casamento era o maior risco de todos. 
Naquela semana, Rae fez questo de permanecer em Emerson, todas as vezes que saiu com Trent. Numa noite foram a uma pizzaria, que ela sabia que Trent costumava frequentar quando jovem e, em vez de forar um encontro com alguma garota atraente, combinou uma reunio com Mason, Little Ed e suas famlias.
Na noite de sexta-feira foram ao cinema mais antigo da cidade, o mesmo que Trent ia quando criana. Sentaram-se no balco e comeram pipocas.
Rae ainda no conseguira decidir se Trent era dono de uma imensa fora de vontade, ou se era ela quem tinha muita imaginao. Achava que havia uma atrao entre eles, mas talvez estivesse enganada. Afinal, morando na mesma casa, Trent j tivera oportunidade de v-la em seus piores momentos: acordando, de manh, ou exausta, ao final de um dia de trabalho.
E ele a veria assim novamente, naquele dia. Como na maioria dos sbados, sua agenda estava lotada. E o fato de ver Trent no cmodo contguo, enquanto cortava os cabelos de suas clientes, obrigava-a a lutar com todas suas foras para manter a concentrao.
Pois, para aumentar sua frustrao, Trent estava na sala ao lado ajudando a me a fechar a loja de presentes.
Num intervalo entre uma cliente e outra, Rae foi at l conversar com Maureen. A nica coisa que restava da loja era o telefone, num dos cantos, no cho. Trent acabara de sair, carregando uma caixa de papelo e, sozinhas, Rae e Maureen trocaram um olhar.
	Nem posso acreditar que voc est mesmo indo embora  disse Rae, a voz ecoando na sala vazia.
	No estou indo embora, querida. Continuarei morando na mesma cidade.
	Sim, mas no estar mais na sala ao lado.
Maureen fez uma volta no centro do cmodo.
	Isto aqui significou muito para mim  disse, baixinho.
Rae engoliu em seco.
	Voc parece to tranquila. No consigo imaginar como seria ter de fechar o Styles...  Calou-se, ao pensar em quo rpido isto poderia acontecer.
Maureen aproximou-se e enlaou-a pelos ombros.
	Depois do meu divrcio, com Trent estudando fora, esta loja foi minha vida, bem como meu ganha-po. Eu a ergui do nada, e minha auto-estima crescia juntamente com seu sucesso. Durante alguns anos, foi tudo o que eu tinha. Entretanto, de uns tempos para c, a loja tornou-se apenas uma parte da minha vida e, quando eu sair daqui hoje, esta parte estar encerrada. Mas eu continuarei sendo uma pessoa inteira.
Quando retornou ao trabalho, Rae ficou pensando nas palavras da amiga. Por mais que estivesse contente por Maureen, sentia uma tristeza egosta, sabendo de quanta falta a amiga lhe faria.
E no pde evitar de pensar no que aconteceria, no dia em que tivesse de fechar o Styles e sair da casa. Pois aquilo era tudo o que possua na vida.
Trent preparava-se para limpar a sala vazia onde antes estivera a loja de sua me, quando Rae apareceu na porta.
	Ol!  ela disse.
Trent sorriu, retribuindo o cumprimento, e sentiu um calor terno e suave envolv-lo, como sempre acontecia quando ela estava por perto.
Rae permaneceu na soleira da porta, hesitante.
	Deseja alguma coisa? - ele perguntou.
	Eu... no!  Rae fez uma pausa e acrescentou:  Isto , no o vi o dia todo, e s parei para dizer ol. Mas tambm estava pensando se voc ter algum tempo livre esta tarde.
	Quer sair hoje  tarde? Ora, Rae, eu sei muito bem como fica ocupada aos sbados.
	No  para sairmos juntos...  uma outra pessoa que eu queria que voc encontrasse  ela disse, enrubescendo levemente.
Trent balanou a cabea.
	No.
	No?  Rae ficou surpresa com aquela total falta de cooperao.  Por que no?
	Nosso acordo era que ns dois sairamos juntos. Nunca concordei em me submeter aos encantos de qualquer mulher solteira de Emerson. Se voc est pensando em fazer outro desfile de garotas para mim, a resposta  no.
	Desfile? Eu no...  Rae calou-se e virou-lhe as costas.  Tudo bem. Esquea.
Trent retomou a limpeza, imaginando por que se sentia to mal por haver se recusado a ouvir o que Rae tinha a lhe pedir. Afinal de contas, ele estava certo. E cansado de ser considerado o solteiro mais cobiado da cidade.
O rudo de vozes no hall de entrada penetrou em seus pensamentos. J estava acostumado ao barulho de conversas no salo de beleza, mas aquele era diferente. Eram vozes masculinas.
Porm, no demorou muito para que ele descobrisse o que estava acontecendo. Subitamente onze homens entraram na sala vazia e cercaram-no.
	Ol, rapazes!  Trent cumprimentou-os, sabendo que haviam lhe planejado alguma.
Pois os onze sujeitos em torno dele eram Little Ed, Mason e os outros nove recm-casados que, anteriormente, haviam sado com Rae. Eram os homens que haviam-na ajudado a construir a fama de "Fazedora de Noivos".
	Venha conosco, Trent  Little Ed falou, com sombria determinao.
	 claro  Trent concordou, pois sabia que no tinha outra escolha. Seguiu-os para fora da casa e pararam no meio do gramado.  Posso ajud-los em alguma coisa?
Little Ed limpou a garganta. Ao que parecia, fora eleito porta-voz do grupo.
	S queremos conversar com voc  disse.
Trent cruzou os braos e recostou numa rvore.
	V em frente, pode falar.
A valentia de Little Ed esmoreceu visivelmente. Ruborizando, ele comeou:
	Bem, Trent, o negcio  o seguinte...  Calou-se, frustrado por no saber como comear.
Trent riu alto.
	O que Rae andou aprontando, desta vez?  perguntou.
Little Ed virou-se para os outros, aliviado.
	Esto vendo? Nem precisamos falar nada, ele adivinhou.  Voltou-se para Trent e encolheu os ombros.  Ela nos pediu para convenc-lo das vantagens e recompensas de ser casado.
Trent riu ainda mais.
	Convencer-me? Foi assim mesmo que ela falou?
	No,  claro que no. Rae jamais diria isto. S pensou que, se ns todos lhe dissssemos como  bom estar casado, voc poderia pensar no assunto;
	E, naturalmente, vocs concordaram.
	Naturalmente. Afinal, Rae  o motivo porque todos ns estamos to bem e felizes.
	Por acaso vocs j pararam para pensar que acabariam se casando de qualquer maneira, mesmo se no tivessem sado com Rae?
Os onze homens afastaram a ideia com um coro de "no". Depois, ficaram em silncio. Trent pensou que, como uma delegao designada para convenc-lo, eles no estavam se saindo muito bem. Mas no poderia culp-los. A maioria deles era capaz de pagar para no ter de falar sobre aquele tipo de assunto. Principalmente um sujeito como Little Ed.
Trent decidiu arranc-los do sofrimento. Enquanto o grupo hesitava no meio do jardim, sem saber o que fazer em seguida, Trent foi para a garagem e voltou trazendo uma bola e um basto de beisebol.
 Ei, que tal um joguinho?  convidou.
Saram todos, na maior animao, para o campo de beisebol da escola. Duas horas depois, o time perdedor j desafiava os vencedores para uma partida na semana seguinte. E, sob o sol de fim de tarde, as esposas comearam a chegar, sozinhas ou em pares, para lev-los para casa. Trent suspeitou que isto tambm fazia parte do plano de Rae, pois foi o que realmente funcionou. Ao ficar sozinho no campo deserto, o significado disto no lhe escapou.
Trent voltou para casa, guardou a bola e o basto novamente na garagem e bebeu gua da torneira no jardim. Permaneceu ali por um instante, refletindo em como fora bom vir para casa sabendo que Rae estaria ali,  sua espera.
Entrou e foi direto para o salo de beleza. Espiou pela porta e disse:
	Ol! J cheguei.
Rae enviou-lhe um sorriso que fez derreter seu corao.
	Ol, Trent. Como passou a tarde?
Havia uma cliente na cadeira, cortando os cabelos, e outra esperando.
	Muito bem, obrigado  ele respondeu, satisfeito por poder manter um clima de distante cortesia. Na verdade, sua tarde fora completamente atpica, graas a ela.
Retomou, mais uma vez, o trabalho de limpeza da sala, sempre consciente do fato de que Rae estava a apenas alguns metros de distncia.
Quando saiu para colocar uma caixa de lixo para fora, o telefone tocou e, percebendo que ele no estava, Rae foi atender.
	Al? Styles e...  Calou-se, lembrando que a loja de Maureen no existia mais.  Styles, boa tarde.
	Al?  Uma voz feminina respondeu, do outro lado. Uma voz desconhecida, mas agradvel.  Eu gostaria de falar com Trent Colton.
	Ah, ele est aqui. Espere um instante, por favor.  Rae entregou o fone para Trent, que acabara de entrar.
	Ol, Lee Ann  ouviu-o dizer, enquanto saa.
Trent recostou numa parede da sala vazia. Lee Ann era a mulher que pretendia comprar a casa e, como era de seu feitio, foi direto ao assunto. Esta era uma das qualidades que Trent admirava nela.
	Na prxima tera-feira est timo para mim  ela disse.
	Ento nos encontramos aqui na casa. Ao meio-dia?
	Duas horas,  o mais cedo que poderei chegar a. Tenho outra reunio na parte da manh.
Trent desligou o telefone e foi para o corredor. Mas uma troca de palavras no salo de beleza o fez parar.
	Onde est meu troco?  A pergunta foi feita num tom elevado e irritado.
Trent espiou pela porta e viu que Rae estava sozinha, em companhia apenas de uma garota, adolescente.
A resposta de Rae veio firme, porm num tom baixo:
	Seu corte custou dez dlares, Sara. E voc me deu uma nota de dez.
	No  a jovem insistiu.  Eu lhe dei uma nota de vinte.
Sei disso porque meu pai deu-me esta nota hoje cedo. Costumo cortar o cabelo em outro lugar, mas pensei em vir aqui hoje porque  mais barato. Vou precisar do troco para sair esta noite. 
	Seu pai pode ter-lhe dado vinte dlares hoje cedo, mas voc me entregou apenas dez  Rae afirmou, com a mesma calma.
	No acredito nisso! Voc est tentando me enganar.
	Por que eu faria isto, Sara?
	Para ficar com meus dez dlares!
	Eu jamais mentiria ou enganaria algum por dez dlares  Rae retrucou.  Preciso de cada centavo que ganho, mas fao questo de ganh-lo honestamente.
A garota ficou em silncio. Trent continuava ouvindo no corredor, fascinado.
Rae abriu a gaveta da caixa registradora.
	Vou lhe dizer o que fazer, Sara. Se tem tanta certeza de
que me deu vinte dlares, por que no vem at aqui e pega uma nota de dez?
A jovem hesitou, confusa, e murmurou:
	Por que voc simplesmente no me d o dinheiro?
	Porque ganhei os dez dlares que voc me deu. Se quiser tirar dez de mim, ter de vir busc-los.
Sara ergueu os olhos para o teto, depois baixou-os para os ps. Mas no se moveu.
	Ahn... Acabei de me lembrar que passei na loja de cosmticos, antes de vir para c. Ento, acho que lhe dei mesmo uma nota de dez. Eu havia esquecido...
Rae enviou-lhe um sorriso animador.
	Est tudo bem, Sara. Isto acontece, todo mundo esquece alguma coisa, s vezes. Espero que volte ao Styles, da prxima vez que precisar de um corte.
	Quer dizer que voc no...  Sara encarou-a, embaraada.
 Bem, para falar a verdade, eu gostei muito do corte. Mal posso esperar para mostrar s minhas amigas.
	Foi um prazer atend-la.
quela altura, a garota j estava sorrindo.
	, gostei muito. Obrigada.
Quando a porta bateu atrs de Sara, Trent entrou no salo. Rae continuava parada atrs da caixa registradora.
	Muito bem  disse.  Gostei disto.
	Obrigada.
	Voc se manteve firme. Como soube que iria dar certo?
Rae abriu a gaveta da registradora, para que Trent pudesse olhar. No havia nenhuma nota de vinte.
	Voc poderia t-la desmascarado logo de incio  ele disse, admirado.
	Sim, mas imagine como ela iria se sentir.
Trent no pde mais se conter. Precisava dar vazo aos seus sentimentos por ela. Puxou-a para si e enlaou-a num abrao doce e delicado.
	Por que fez isto?  Rae indagou, embora no parecesse incomodar-se de estar nos braos dele.
Trent murmurou contra seus cabelos:
	Qualquer outra pessoa teria se preocupado mais com o dinheiro, ou teria se indignado por ser chamada de mentirosa. Mas voc, o que fez? Deu  garota uma chance de sair da situao com um mnimo de dignidade.
	No sou nenhuma santa, Trent. O que fiz foi tambm para proteger o meu dinheiro.
Ele riu.
	Sim, eu sei. Mas voc  a coisa mais prxima de uma santa que eu j conheci.
E aquele era o problema. No importava o quanto ele estivesse gostando de Rae, porque ela merecia algum muito melhor do que ele.
	Se eu fosse assim to boazinha e generosa como todos pensam  Rae retrucou,  teria lhe entregado a casa, como voc queria a princpio. E no teria concordado com a aposta. Porm, como j lhe disse, eu quero esta casa.
E ele a queria. Sentindo um desejo quase insuportvel, Trent puxou-a mais contra si, para que ela tambm sentisse.
Rae fitou-o diretamente, os olhos castanhos quentes e luminosos.
 Sei que voc  capaz de ser um marido fiel e amoroso  disse, convicta.
Aquelas palavras soaram fundo dentro dele e dissolveram algo que l estivera congelado havia muito, muito tempo. Enquanto tentava encontrar a melhor maneira de se expressar, de explicar seus sentimentos, a campainha tocou, anunciando a chegada da cliente seguinte de Rae. E isto o salvou de dizer o que quer que fosse.

CAPITULO VI

Nos dias que se seguiram, Rae frequentemente perguntava-se de onde havia tirado aquela convico de que Trent poderia transformar-se num marido fiel e amoroso. Com tantas provas em contrrio, s havia uma forma de saber: pelo seu prprio corao.
Na manh de tera-feira, enquanto tomavam caf, Trent avisou-a de que iria passar o dia em Boston, tratando de negcios. E convidou-a para sair  noite.
At ento, Rae sempre havia tomado a iniciativa de programar seus "encontros", a princpio para certificar-se de que ele se encontraria com outras mulheres e, depois, para que ficassem sempre em Emerson. E Trent parecia satisfeito com os arranjos.
Entretanto, era muito agradvel ser convidada para sair, deixar os planos ao encargo dele. Fazia-a sentir-se como se Trent quisesse sua companhia, a despeito da aposta. Rae ficou imaginando o que fariam naquela noite.
Trent lhe dissera que estaria de volta no final da tarde, mas quando Rae fechou o salo, s seis horas, ele ainda no estava em casa. Tomou um banho rpido, mas nem sinal dele.
Sentindo-se agitada, Rae foi para a varanda e, no banco de balano, encontrou uma caixa com o selo da floricultura local. Calculou que teria sido deixada enquanto ela estava no banho.
Dentro da caixa havia trs rosas vermelhas, de caules longos. E um carto, que dizia: "Fiquei retido em Boston, por isso no poderei ir busc-la. Mas nosso encontro continua de p. Use seu vestido mais elegante. A carruagem deve chegar s seis e meia".
Faltavam apenas dez minutos. Rae colocou as flores num vaso e correu para o quarto. Mal acabara de vestir-se e arrumar os cabelos num coque alto, quando ouviu uma buzina l fora. Perfumou-se, pegou a bolsa e, um segundo depois, trancava a porta pelo lado de fora. S ento viu Little Ed, recostado na velha picape,  sua espera. Rae estacou, surpresa.
	 esta a minha carruagem?
Little Ed no respondeu na hora, pois a olhava, boquiaberto.
	O que foi?  ela perguntou, checando rapidamente o vestido para ver se havia algo errado. Mas estava tudo certo, era um vestido preto, simples mas elegante. 
Little Ed tirou o bon da cabea e limpou a garganta, porm, quando falou, a voz soava meio rouca.
	Se eu no fosse um homem muito bem casado, a roubaria daquele patife agora mesmo.
Rae ruborizou,- mas logo se refez.
	Se no me falha a memria, Little Ed, voc j teve sua chance comigo.
	, mas voc nunca se arrumou assim, quando saamos juntos.
	Voc nunca me pediu para usar meu vestido mais elegante  ela retrucou, sorrindo.  Ento, qual  a brincadeira, desta vez? Trent deu-me instrues para ficar toda arrumada, e depois espera que eu ande por a nesta picape velha, com voc?
Little Ed praguejou baixinho.
	No foi culpa dele, Rae  disse.  Trent queria que eu viesse busc-la com a limusine de Big Ed, mas o maldito carro estava com um pneu furado, e no tive tempo de troc-lo. Para complicar as coisas, Caroline saiu com o beb no nosso carro, e s me restou a picape. Mas chegaremos l a tempo... a no ser que o trnsito esteja complicado.
Flores, limusine... Rae estava sensibilizada. E curiosa.
	Chegaremos l... aonde?
Little Ed abriu a porta e ajudou-a entrar no veculo.
	No se preocupe. Prometi a Trent que no lhe diria nada. Mas vamos logo, seno nos atrasaremos.
Rae no ficou realmente surpresa quando Little Ed pegou a estrada para Boston, pois imaginava que Trent iria encontr-la em algum ponto no meio do caminho. E tambm sabia que no adiantaria pressionar Little Ed para que lhe contasse onde iriam pois, se ele prometera segredo a Trent, cumpriria a palavra at o final:
	Ser que Trent sempre se d tanto trabalho para sair
com uma garota?  perguntou.
	Pelo que sei, esta  a primeira vez que isto acontece  Little Ed respondeu, mantendo a ateno no trnsito intenso de sexta-feira  noite.
Rae calculou que este fosse um bom sinal.
	Est fazendo algum progresso, com ele?  o amigo perguntou, aps um instante.
	O que foi que disse?  ela tornou, engolindo em seco. Sua atrao por Trent estava assim to evidente?
	Estou me referindo a aposta  Little Ed esclareceu, olhando-a de relance.  Como vo indo as coisas?
Ela deu uma risadinha, aliviada.
	Parece que, at agora,  ele quem est ganhando.
	Pelo jeito voc ainda no conseguiu convenc-lo das vantagens do casamento.
	Nem um pouco.
Little Ed estendeu o brao e deu-lhe uma palmadinha en-corajadora na mo.
	No desanime, Rae. Voc ainda tem bastante tempo.
	...  Ela forou um sorriso.  Faltam dois meses e pouco para o final da aposta.  Olhou pela janela e deu-se conta de que j estavam em Boston.  Puxa, Trent no teve acanhamentos em lhe pedir que viesse para Boston, numa sexta-feira e na hora do rush  comentou.
Little Ed riu.
	No diga nada a ele, mas isto  pouco, perto dos favores que ele j me prestou no passado.
Momentos depois, Little Ed parou o veculo junto a calada. E, imediatamente, Rae avistou Trent  sua espera, recostado num edifcio. Assim que os viu, aproximou-se e abriu a porta para ela, ajudando-a a descer. Depois olhou-a de cima a baixo, com evidente admirao.
	Puxa...  murmurou.
	Era exatamente isso que eu queria dizer, quando a vi  Little Ed falou.
	Ora,  s um vestido preto e bsico  Rae protestou, sentindo o rosto arder.
Trent inclinou-se na cabine da picape e apertou a mo do amigo.
	Obrigado pela ajuda, Little Ed. Estou lhe devendo uma.
Little Ed piscou para Rae.
	S uma?  brincou.  Acho que vou colocar na sua conta.  Despediu-se dos dois e, com um ronco do motor, retornou ao trfego intenso e pesado.
Trent pegou o brao de Rae dizendo, com suavidade.
	Desculpe-me por todo este transtorno. Ainda nem tive chance de dizer o quanto voc est bonita.
	Obrigada  ela respondeu, sentindo-se ruborizar novamente. O que estava acontecendo? Uma sbita volta  adolescncia?
	Bem, que tal irmos a um concerto?  ele perguntou, exibindo-lhe um par de entradas para o teatro.
Ela sorriu, encantada.
	Como soube que este seria o programa perfeito?
Ele encolheu os ombros.
	Sabia que voc gosta de msica e conheo um sujeito que vende os bilhetes.  Sorriu, antes de acrescentar:  Ele tambm vende entradas para o jogo de beisebol, mas acho que voc est bem vestida demais para isso.
	Pois adoro beisebol  ela afirmou.  Podemos ir ao jogo numa prxima vez.
Trent segurava-lhe a cintura, enquanto caminhavam pela calada.
	E eu adoro uma mulher que adora beisebol  sussurrou em seu ouvido.
Seria to fcil ser seduzida por ele, Rae pensou, tentando manter-se o mais indiferente possvel.
	Vou me lembrar disto, quando estiver procurando uma esposa para voc  retrucou.
Terminado o concerto, caminharam durante algum tempo pelas ruas da cidade, de mos dadas, conversando. Quando finalmente entraram no carro de Trent, Rae recostou-se no assento e fechou os olhos, saboreando cada detalhe daquela noite maravilhosa.
Trent dirigia devagar e, com a capota do carro conversvel baixada, a brisa suave os envolvia. Ento, Rae percebeu que paravam. Abriu os olhos e virou-se para Trent. Ele olhava para a frente, na direo de um edifcio.
	Onde estamos?  ela perguntou, embora tivesse a impresso de que ainda no haviam sado de Boston.
	Este  o meu hotel  ele disse, observando-a cuidadosamente e sentindo uma pontada de culpa ao reparar na imediata mudana na expresso dela.
No a levara at ali com a inteno de aborrec-la, mas sim porque estava ansioso demais em relao ao hotel e desejava compartilhar sua felicidade com Rae. Parecia-lhe certo dividir seus sonhos, e tudo o mais em sua vida, com ela.
Rae sentiu a boca seca, quando falou:
	Voc... j o comprou?
	J fiz uma proposta, e o proprietrio aprovou. Mas ainda levar algumas semanas para fecharmos o negcio e,  claro, s receberei os documentos definitivos depois que vender a casa. Mas j sinto como se ele fosse meu.
Rae observou bem o hotel.
	Posso entender porqu  disse.  Parece um lugar perfeito: no muito novo, nem muito antigo. Nem grande ou pe queno demais. No muito perto do centro, nem muito longe.
Trent sorriu.
	Nem muito caro, e isto  o principal. E, dentre tantos outros que andei olhando,  o nico que poderei pagar, assim que vender a casa em Emerson.  o hotel dos meus sonhos, sem dvida.
Rae inclinou-se para o lado e deu-lhe um rpido abrao. Trent estava to feliz que era impossvel no se sentir feliz, tambm. Mesmo que a realizao do sonho dele significasse o fim dos seus prprios sonhos.
Por que a vida era to complicada?, pensou, enquanto voltavam para Emerson. E, quando finalmente chegaram em casa, a casa que ela tanto queria e amava, emitiu um suspiro desolado.
	O que foi?  Trent indagou, franzindo a testa preocupado.
	Nada  ela respondeu, forando um sorriso. Mas, ao sair do carro, tentou se lembrar de que a aposta ainda no estava terminada... e tampouco vencida.
Trent saiu do veculo e parou ao lado dela, tornando a fit-la com a mesma expresso admirada com que a olhara no incio da noite.
	Voc est linda  disse, baixinho, e levantou-a em seus braos, fazendo-a sentar no capo do carro.
Rae permaneceu em silncio, e seus olhos se encontraram por um longo instante.
Trent tentava ocultar o desejo que o invadia. Rae lhe provocava sensaes e sentimentos poderosos e desconhecidos demais. J fora a inmeros concertos, mas aquela noite havia sido como uma primeira vez, pois a presena dela tornava tudo novo e diferente.
	Diga-me uma coisa  ele comeou, num tom baixo e suave.
	O que quer saber?
A noite os envolvia como um manto de veludo. A brisa suave trazia perfumes misteriosos, e apenas a luz solitria de um poste os iluminava.
	O que aconteceu com os outros doze?
A pergunta a pegou de surpresa. Rae pensou nos relacionamentos que tivera naqueles ltimos trs anos, e nas coisas que no diria a Trent. Pensou em seus temores de jamais ser algo alm de uma amiga para os homens, e de como quase perdera todas as esperanas de algum dia arrumar seus prprios cabelos para seu prprio casamento.
	O que aconteceu?  repetiu, tentando ganhar tempo. Bem, ns saamos juntos.
Trent inclinou-se levemente para frente.
	E...?
Ela encolheu os ombros, esforando-se para no demonstrar o quanto aquela proximidade a perturbava.
	E nos divertamos, s isso. Voc os conhece, Trent. So todos timos rapazes, e muito divertidos.
	To divertidos que voc parava de v-los.
	Depois de um certo tempo, ficava evidente que no ia dar certo  ela falou.  Gostvamos da companhia um do outro, mas...
	Mas o qu?
Rae calou-se, perdida em pensamentos. Trent inclinou-se um pouco mais, pousando ambas as mos sobre o capo e em torno dela, embora no a tocasse.
	Rae  disse, baixinho.
	O qu?
	Conte-me tudo.
Ela respirou fundo. No era nada fcil contar "tudo", pois nem ela mesma entendia o por qu das coisas.
	O problema no era o que tnhamos em comum, mas sim o que no tnhamos.
	No entendi.
	Bem, s vezes, com alguns deles, eu dizia a mim mesma: "Rae, isto  o mximo que voc vai conseguir. Este sujeito  agradvel, divertido, carinhoso e est em busca de algum com quem possa formar um lar e ter filhos, exatamente como voc. O que mais pode querer?" E eu sabia que se o encorajasse um pouco...  Franziu a testa.  Talvez eu d a impresso de estar me gabando, mas...
	No est se gabando, est sendo honesta.
	De qualquer forma, eu nunca conseguia prosseguir com o relacionamento porque achava que algo estava faltando.
Algo estava faltando, Trent pensou, lembrando-se dos comentrios dos amigos. Porm, sabia que Rae no se referia ao aspecto fsico daqueles relacionamentos. No era o tipo de garota em busca de um caso passageiro mas, ao contrrio, estava  procura de algum que a levasse at as estrelas.
	Est se referindo ao amor, Rae?  perguntou.   isso que falta, para voc?
	Para dizer a verdade, , sim  ela respondeu, enviando-lhe um olhar desafiador.
	Ora, vamos l... Se eu tivesse inteno de me casar...
	O qu, como todos sabemos, voc no tem  ela lembrou-o, interrompendo.
	E verdade, mas se eu tivesse, no deixaria escapar doze boas oportunidades; s porque o Cupido no me atingiu com sua flecha, ou porque as estrelas no brilharam mais forte, dando um sinal do amor que voc parece estar procurando.
	No acredito no que estou ouvindo! Voc est me dando conselhos sobre como arrumar um casamento?
	Ei,  voc quem est querendo casar. Teve mais de uma chance para isso, e no aproveitou.
	Ainda bem que no! Nenhum deles era o homem certo para mim, da mesma forma que eu no era a mulher certa, para nenhum deles.
Rae percebeu que era a primeira vez que tinha conscincia deste fato. Porm, no fundo, sabia que os relacionamentos no haviam dado certo porque nenhum dos rapazes havia lhe tocado o corao... como Trent tocara. Ele era capaz de faz-la voar alto, quase at as estrelas.
Como se pudesse ler seus pensamentos, ele falou:
	Volte para a terra, Rae.
	O qu?
	J  hora de voc encarar as coisas com mais realismo. No acha que est sendo exageradamente romntica?  difcil entender como pode continuar acreditando em romance, depois de ter falhado em ter romantismo por doze vezes consecutivas.
Ela sorriu, surpreendendo-o.
	A que voc se engana, Trent. O romantismo no falhou, pois aqueles rapazes casaram-se com as mulheres certas para eles.
	Mas, e quanto a voc? No existem prncipes em cavalos brancos, Rae. No se preocupa com a possibilidade de jamais encontrar o tal "homem certo"? Que talvez ele sequer exista?
Rae resistiu ao impulso de rir. Ah, ele existia, sim, pensou. E estava bem diante dela.
	Sim, eu me preocupo  respondeu, sria.  Da mesma forma que me preocupo com a possibilidade de o sol parar de brilhar, de a terra parar de girar, de as estrelas despencarem do cu.
Trent riu, desistindo de faz-la enxergar a razo. Ergueu os olhos para o cu.
	Por falar nisso  disse , as estrelas esto lindas demais, esta noite. O que acha de trocarmos de roupa e nos encontrarmos na varanda dos fundos, para apreci-las?
Rae escorregou do capo, apoiando-se nos braos dele.
	Estou sempre pronta para apreciar estrelas.
Trent enlaou-lhe os ombros, enquanto encaminhavam-se para a casa.
	Quem sabe  disse,  vemos alguma cadente?
	Ou, quem sabe, voc v alguma brilhar mais forte.
Quando Rae foi para o quintal, avistou Trent sentado numa manta de l que estendera no gramado. Foi invadida por uma sbita sensao de embarao, embora soubesse que era absurda.
	Posso me sentar com voc?  perguntou, aproximando-se.
Em resposta, ele bateu com a mo na manta, enviando-lhe um sorriso.
Rae sentou-se ao seu lado, erguendo os olhos para o cu.
	Fiquei contente por voc querer vir aqui  disse, aps um momento.
	H tempos no vejo tantas estrelas, morando sempre em cidades grandes.
	Pela maneira como fala, parece que sentiu falta delas.
	Talvez.
	Posso apostar que sentiu falta de muitas outras coisas, sem nem mesmo perceber.
	Como o qu, por exemplo?
	Little Ed, Jim e Mason  ela respondeu, sem hesitar.
Trent sorriu.
	No mundo inteiro no h ningum como estes trs patifes  disse, com afeio.
	E sua me.
	Sem dvida. Ela  uma pessoa maravilhosa. Este est sendo o maior perodo que passamos juntos, desde que fui para a faculdade.  Trent tinha conscincia de que seu relacionamento com a me melhorava a cada dia. E gostava disto.
	E a casa?  Rae arriscou, esperando que ele tivesse tambm desvendado seus sentimentos complexos em relao a isto.
Mas ele no respondeu. Mantinha os olhos fixos no jardim, iluminado pelos raios da lua. A paz e a quietude os envolvia como um manto e, aps um momento de silncio, Trent estendeu a mo e tocou os cabelos de Rae.
	No quer solt-los?  pediu, num tom enrouquecido.
Ela retirou os grampos que lhe prendiam o coque e deixou os cabelos carem pelos ombros. Trent afagou-os, mergulhando os dedos em sua maciez e, aos poucos, passou a acariciar-lhe a nuca. Rae cerrou os olhos, perdida na sensao deliciosa. Emitiu um leve som, meio suspiro, meio gemido. Jamais algum lhe provocara algo assim e ela respondia a Trent de formas que iam muito alm do simples contato fsico. Havia algo nele que a intrigava, que a impelia em sua direo, que a fazia querer explorar e saber mais.
Estendeu a mo e tocou-lhe o rosto, recebendo em troca um olhar profundo e iluminado. Deslizando a ponta do dedo no rosto dele, percorreu-lhe os traos, como se quisesse guard-los para sempre na memria. Trent segurou-a pela cintura e puxou-a para si, esquecendo todo controle.
Seus lbios encontraram-se, vidos e ansiosos. Todas as dvidas e incertezas que permeavam a ambos, naquelas semanas, desapareceram por encanto enquanto o beijo longo e profundo acontecia. Para Trent, era um momento de intenso alvio. Havia desejado e esperado aquele beijo e, finalmente, sabia que ela tambm o desejara.
Com toda delicadeza, a fez deitar sobre a manta. Com os olhos presos um no outro permaneceram imveis por um instante, em suspenso.
	Rae  ele sussurrou,  voc sabe para onde isto pode nos levar, no ?
Ela fitou-o, quase mergulhando na profundeza daquele olhar. Sim, ela sabia. Porque j estava acontecendo: ela o amava.
Trent percebeu que Rae respirava mais rpido e, sendo um homem experiente, sabia que o desejo brotava de dentro dela, prestes a explodir. Mais do que tudo, no mundo, queria ser o homem que a despertaria para as delcias do amor, mas somente se fosse esta a vontade dela.
	No sabe?  insistiu. No adiantava mais ocultar suas intenes.
Rolou o corpo por cima do dela, apoiando-se nos cotovelos, sempre fitando-a e fazendo-a perceber sua prpria excitao.
Rae debatia-se em sensaes e pensamentos. Finalmente apaixonara-se por algum, e sabia que no podia ter feito uma pior escolha. Trent podia desej-la, querer o seu corpo, mas certamente no estava interessado em seu amor. Um vazio intenso cresceu dentro dela, anulando todas as outras sensaes. Engoliu em seco, antes de dizer:
	Sim, eu sei onde isto poder nos levar. Mas no  da maneira que eu gostaria.
Trent acariciou-lhe o rosto, suavemente.
	Tem certeza?  perguntou.  Porque no  esta a mensagem que seu corpo est me enviando. Acho que voc me deseja, tanto quanto eu a desejo.
Rae abafou um grito de frustrao. Ele realmente no entendia nada... Seu desejo era fruto de uma paixo sincera, de seu amor, e no simplesmente uma resposta fsica  excitao dele. Ela o amava!
	Tenho certeza  afirmou, num misto de tristeza e determinao.
Trent afstou-se subitamente, rolando o corpo para o lado. Porm, quando ela fez meno de levantar, ele a segurou com delicadeza, impedindo-a.
	Rae, eu me sinto muito, muito atrado por voc  disse, deixando transparecer toda sinceridade em sua voz.  E sei que voc sente o mesmo por mim. O que existe entre ns  algo muito forte, ser que no percebe?
Ela no respondeu, permanecendo imvel, os olhos fixos no jardim enluarado.
	Rae?
	Trent, eu...
	Por favor, olhe para mim, Rae.
Devagar, ela virou-se e seus olhos encontraram-se. Foi ento que Trent reparou nas lgrimas que brilhavam em seus clios espessos, luminosas como estrelas.
	Eu percebo sim, Trent, mas...
	Mas, o qu?
	No  o bastante.
A resposta provocou uma sbita irritao em Trent, que levantou-se de um salto e praguejou, baixinho.
	O que  o bastante para voc, Rae?  perguntou, virando-se para encar-la.  Ser que pretende passar o resto da vida preparando os homens para se casarem com outras?
	Voc sabe que no  nada disso  ela murmurou.
Trent sentiu uma pontada de culpa pela prpria impacincia.
Desde o incio, sempre soubera que Rae era diferente, que merecia muito mais do que ele estava disposto a dar.
	Voc  capaz de negar a paixo que estamos sentindo um pelo outro?  perguntou.
	Esta... paixo,  novidade para mim. Jamais senti algo assim e no sei se ela ir florescer ou morrer, se eu neg-la.
 Fitou-o, com lgrimas nos olhos.  Mas, neste momento, sei que devo negar.
Levantou-se de um salto e correu para dentro de casa. E, embora Trent dormisse sob o mesmo teto que ela, ouvindo o som de seu suave respirar, jamais se sentiu to solitrio quanto naquela noite.
Na semana que se seguiu, Rae sentiu suas emoes conflitantes chegarem a um extremo desesperador. Embora acreditasse firmemente em sentimentos bsicos como o amor, confiana, aceitao e lealdade, no conseguia entender por que fora to difcil negar aquilo que Trent lhe oferecia. Sempre soubera que queria um lar, uma famlia e a segurana de um amor, mas estava completamente despreparada para a fora do desejo que Trent lhe despertara, para a paixo que pode existir entre um homem e uma mulher.
Naturalmente, Trent jamais mencionara qualquer tipo de compromisso, e muito menos a palavra amor. Se tudo o que ele queria era um relacionamento fsico, ento ela agira cor-retamente, pois precisava e queria muito mais do que isto.
Tampouco o incidente foi novamente mencionado. Aquela noite ficou no passado e ambos retomaram o mesmo comportamento de antes, saindo juntos duas vezes por semana, fazendo piadas a respeito da aposta, dividindo a casa amigavelmente. Apesar de no demonstrar, Rae sentia-se dilacerada por dentro, e imaginava o que Trent estaria sentindo, ou pensando.
Trent nunca havia passado uma semana pior, em toda sua vida. Depois de todo cuidado que tivera, pressentia que sua atitude, naquela noite, provocara um retrocesso no relacionamento com Rae. Como que por milagre, conseguiram passar sete longos dias, e noites, juntos na mesma casa. Mas o autocontrole de Trent comeava a enfraquecer e ele refletia por quanto tempo mais conseguiria manter aquela farsa.
Mesmo sabendo que deveria manter-se longe de Rae, mas incapaz disto, Trent convidou-a para jantar naquela noite, depois que fechasse o salo. Depois, foi tratar de alguns negcios com seu advogado antes que a compradora viesse ver a casa.
Maureen e a me de Little Ed, Darlene, estavam no Styles naquela tarde, quando uma mulher apareceu na porta. Aparentando mais ou menos a mesma idade que Rae, era alta, loura, bonita, e vestia-se com elegante sobriedade.
	Ol  cumprimentou-as, com um sorriso agradvel. Ento, avistou a me de Trent.  Ol, Maureen, como vai?
	Muito bem, Lee Ann. E lisonjeada por voc ter me reconhecido, mesmo depois de trs anos. E um prazer tornar a v-la.
	 um prazer estar aqui. E voc deve ser Rae.
	Exatamente. Como vai?  Rae estendeu a mo e cumprimentou-a.
Reconhecia a voz que ouvira no telefone. Aquela era a mulher que iria transformar sua adorada casa num restaurante e, embora tivesse todos os motivos para detest-la, Rae descobriu que isto seria impossvel: Lee Ann era uma pessoa simptica e agradvel.
	Trent me contou que voc ter de se mudar. Lamento muito por isso, sinceramente  disse Lee nn, e era realmente sincera.
	O que vai fazer com a casa?  Darlene perguntou, depois que foram apresentadas.
Lee Ann explicou-lhes a respeito da cadeia de restaurantes que possua.
	E pretende fazer reformas? Vai demolir alguma coisa? 	Maureen indagou.
	Ah, no. S se for para aumentar alguns cmodos, como a cozinha. Gosto de preservar a personalidade de todas as casas onde instalo os restaurantes. E esta casa, em particular, alm de ter um charme especial, est muito bem localizada. De acordo com as pesquisas de marketing, esta rea ser muito valorizada, no futuro.
	Lee Ann!  Trent saudou-a, na porta. Parecia muito contente em v-la.  Voc chegou mais cedo. Que surpresa agradvel!
Lee Ann atravessou a sala e foi encontr-lo, dando-lhe um forte abrao e um beijo no rosto.
	Ol, Trent! Cheguei um pouco antes, mas foi bom conversar com Rae, sua me e Darlene.
	Mas agora as senhoras vo nos dar licena  disse Trent. 	Temos negcios a resolver.
Rae observou-os sair da sala e, aps um intervalo seguro, Darlene cochichou para Maureen:
	Desde quando eles se conhecem?
	Trent a trouxe aqui uma vez, antes de viajar para Tquio. Creio que estavam saindo juntos, na poca.
	Bem  disse Darlene, arqueando a sobrancelha,  ela no teve nenhum problema em beij-lo na frente da me dele. E Trent tambm a beijou, e est saindo com voc, Rae!
	Trent tem toda liberdade para sair com outras garotas, Darlene  Rae retrucou.  Alis, isto faz parte da nossa aposta.
Darlene encarou-a.
	Quer dizer que talvez ele volte a encontrar-se com Lee Ann?
	Ela no parece ser o tipo de mulher que Trent goste  Maureen intercedeu, como se precisasse se convencer disto.
Rae, entretanto, achava o contrrio: Lee Ann era exatamente o tipo de Trent. Inteligente, bonita, envolvida com negcios lucrativos. E, mais importante, no parecia estar em busca de um compromisso srio.
Bem mais tarde, quando Rae j preparava-se para fechar o salo, Lee Ann tornou a aparecer.
	Trent est dando alguns telefonemas  ela explicou.  Importa-se se conversarmos um pouco?
	 claro que no. Sente-se, por favor.
Lee Ann escolheu uma cadeira, parecendo to impecvel quanto estivera horas antes, ao chegar. Em comparao, Rae sentia-se bem menos atraente, segurando a vassoura que estivera usando na limpeza.
	Trent me contou sobre a aposta  Lee Ann comeou.
	E mesmo?
	Sim, e ele pediu ao advogado que acrescentasse uma clusula no contrato que iremos assinar daqui a alguns dias. Se voc ganhar a aposta, ele desiste da venda. Mesmo estando seguro de que ir vencer, ele disse que prefere cobrir todas as possibilidades.
	 um homem esperto.
Lee Ann enviou-lhe um olhar de curiosidade.
	Ele tambm me falou sobre sua fama de transformar solteires em felizes homens casados, atravs de meios misteriosos e inexplicveis. Isso  verdade?
  o que tem acontecido.
	Voc acha que vai dar certo, no caso de Trent?
	Espero que sim. Quero muito ganhar esta aposta.
Lee Ann estreitou os olhos, pensativa.
	Se Voc vencer, poder permanecer na casa e ter a opo de compra.
	E verdade.
	Ento, o que voc realmente deseja  ficar com a casa.
	Foi por isso que concordei com a aposta  Rae respondeu, quase automaticamente. Nos ltimos tempos, j nem sabia mais o que queria.
	Bem, eu tambm quero esta casa, e ela ser minha se Trent vencer.  Lee Ann fez uma pausa.  Voc sabia que Trent e eu estvamos... namorando, antes que ele partisse para Tquio?
	Sim, acho que ouvi dizer.
	Naquela poca, meus negcios estavam apenas comeando e o casamento era a ltima coisa que eu tinha em mente. Mas muita coisa pode mudar, em trs anos.  Lee Ann calou-se por um instante e completou, sorrindo:  O que quero dizer, Rae,  que se voc tiver algum tipo de magia para transformar homens solteiros em noivos felizes, pode us-la comigo.
Rae olhou-a com mais ateno.
	O que foi que disse?
	Bem, o fato  que eu no me importaria nem um pouco de me casar com Trent. Na verdade, adoraria. Sempre nos demos muito bem, e eu at me conformaria em perder a casa, se fosse para ficar com ele.
Rae no conseguiu dizer nada.
Lee Ann prosseguiu, tentando convenc-la:
	Voc entende, no , Rae? Seria mais fcil cas-lo comigo do que com algum que ele ainda nem conhece. E voc acabou de dizer que quer muito esta casa.
Antes que Rae pudesse pensar numa resposta, Trent surgiu na porta.
	Parece que est tudo certo, Lee Ann.
Ela voltou-se para ele e sorriu.
	Eu estava pensando... voc tem planos para o jantar, Trent?
	Rae e eu pretendamos sair, depois que ela fechasse o salo.
	Neste caso, importam-se se eu me reunir a vocs?
Sim, Trent pensou. Ele se importava, e muito. No queria estar com mais ningum, alm de Rae. Mas sabia que no podia recusar, sem o risco de parecer grosseiro.
E claro que no  disse.
Otimo  disse Lee Ann, embora sem  demonstrar ansiedade.
Bom Deus, Rae pensou. Talvez aquilo pudesse dar certo...
	Est pronta, Rae?  Trent perguntou.
Mas ele no podia ver Lee Ann, s suas costas, balanando a cabea e fazendo um sinal para que Rae dissesse no. Rae percebeu que, se no os acompanhasse no jantar, talvez tivesse uma chance de ganhar a aposta. E de perder Trent.
Enquanto trancava a caixa registradora, tomou a deciso. E, naquele instante, o telefone tocou.
Rae foi para a sala vazia, onde antes ficava a loja de Mau-reen, e atendeu o telefone. Era Edna, uma de suas mais antigas clientes, perguntando se poderia ser atendida quela hora.
	 claro que sim, Edna. Venha agora mesmo.
Rae voltou ao salo.
	Apareceu uma emergncia e no poderei sair para jantar  disse.
Trent encarou-o, incrdulo.
	Emergncia? Mas voc  cabeleireira, Rae!
Lee Ann enviou-lhe um sorriso de gratido, imaginando que Rae armara tudo para que ela pudesse sair sozinha com Trent.
	Ora, deixe-a em paz, Trent  disse. Depois, voltou-se para Rae.  Os homens no entendem estas coisas.
Mas Trent insistiu.
	Que tipo de emergncia?  quis saber.
	Edna Crter acabou de saber que esto preparando uma festa surpresa para ela e o marido, pelo aniversrio de casamento.
	E isso  uma emergncia?
	No seria, mas o problema  que Edna tentou aplicar uma tintura sozinha, e tudo deu errado. Ela est em prantos, e disse que se for obrigada a sair daquele jeito prefere mil vezes ficar em casa.
	Ento, ouviu s?  Lee Ann intercedeu.   uma emergncia muito bem justificada.  Pegou Trent pelo brao e empurrou-o na direo da porta. Antes de sair, virou-se e enviou uma piscadela para Rae.  At logo, Rae. E boa sorte.
Rae sabia que ela no se referia  tintura de Edna Crter.
Trent no disse mais nada. Limitou-se a olh-la rapidamente por cima do ombro, e saiu.
Rae recostou-se na soleira da porta e fechou os olhos. Continuava afirmando a todo mundo, inclusive a si prpria, que
queria aquela casa. Mas isto era uma mentira. Subitamente, com uma clareza cristalina, compreendeu que havia algo que queria muito, muito mais do que a casa: Trent.
Mas, infelizmente, talvez fosse tarde demais para isso. E caso o perdesse, s poderia culpar seu talento de "fazedora de noivos". Pois, quando apagou a luz de cabeceira, antes de dormir, Trent ainda no havia voltado para casa.

CAPITULO VII

Rae acabara de acordar, quando ouviu Trent des- as escadas assoviando, vindo do terceiro andar, na manh seguinte. Parou no corredor e bateu em sua porta.
	Ainda est dormindo?  ele perguntou.
	Como posso dormir, com todo esse barulho?  ela retrucou, arrastando-se para fora da cama.
	Pois  hora de levantar, Rae! Quem sabe quantas emergncias esto l fora, esperando por sua mo salvadora?
	Muito engraado  ela disse,  abrindo  a porta e encarando-o.
Trent recostou-se na soleira e sorriu.
	Ento, voc salvou Edna Crter de um terrvel desastre social?
Rae voltou para dentro do quarto e escovou os cabelos.
	Salvei, sim. E fiquei muito satisfeita com isso.
	Senti sua falta, ontem  noite  Trent falou, imaginando se ela teria ido ao jantar, se no recebesse o telefonema imprevisto. 
	E mesmo?
	Ficou preocupada comigo? Eu no pretendia voltar to tarde.  Trent esperava que ela demonstrasse um pouco de cime, mas talvez isto fosse esperar demais.  Voc deve ter imaginado o que estvamos fazendo.
Desceram a escada juntos.
	A no ser que voc esteja pensando em ficar noivo, creio que nada do que faz  da minha conta  ela respondeu.
	Noivo de Lee Ann?  Ele riu.  Ora, isso  absurdo!
Rae foi para a geladeira pegar o suco de laranja e, de costas para ele, ficou contente por poder ocultar o alvio que sentia. Encheu dois copos de suco e lhe serviu um deles. Trent bebeu todo o contedo num s gole.
	Voc no ficou muito esperanosa, no ?
	De maneira alguma  ela disse.
Rae pegou a caixa de cereais, o leite e colocou tudo na mesa. Sentaram-se quase ao mesmo tempo e comearam a comer. Depois de alguns instantes, Trent voltou a falar:
	Quer mesmo saber o que ficamos fazendo? Lee Ann me mostrou suas...
	Qualidades?  Rae interrompeu, com um significativo arquear das sobrancelhas.
Trent ignorou o sarcasmo, embora achasse que era um bom sinal.
	No, suas pesquisas de mercado sobre esta rea  respondeu.
Rae ficou surpresa.
	Pois pensei que voc estaria mais interessado nas pesquisas de mercado sobre Boston, onde seu hotel est localizado.
	E estou  ele apressou-se em dizer.  Mas isto tambm foi interessante.  Irrelevante para sua situao, pensou, mas, assim mesmo, interessante.
	Ontem ela mencionou que esta rea tem um futuro prspero  Rae comentou.  Engraado, eu nunca pensei sobre isto, quando abri o Styles. Mas, como proprietria de um negcio, no ficaria triste se isto realmente acontecesse.
Seus olhos se encontraram, e Rae foi a primeira a desvi-los. Trent sabia o que lhe passara pela mente, pois foi o mesmo que ele pensara: em dois meses, ela no seria mais proprietria de negcio algum. 
Na manh de sexta-feira, dia em que Rae costumava abrir o salo um pouco mais tarde, ela aproveitou para cortar a grama do quintal, embora o tempo prenunciasse chuva.
Andava de um extremo ao outro do gramado, empurrando o antigo cortador manual que pertencera ao av de Trent. Gostava daquela tarefa, mas desde que Trent se mudara para a casa no tivera chance de faz-la, pois ele insistia em tomar para si todas as responsabilidades que antes lhe cabiam, em troca do pagamento do aluguel. Trent argumentava dizendo que a aposta anulara todos os acordos que ela fizera com Mau-reen, porm Rae tinha a impresso de que havia outros motivos por trs disto.
Ultimamente Trent se ocupava com a casa, separando ob-jetos e embalando-os, alguns para serem guardados, outros para serem vendidos. Sara bem cedo, naquela manh, a fim de procurar um espao onde pudesse organizar a exposio e venda de tais objetos.
Se Rae j no soubesse que estava apaixonada por ele, agora teria certeza, pois cada dia que passava ao seu lado era uma doce agonia. Trent fizera o que nenhum outro homem fizera por ela: no apenas aceitara sua amizade, mas tambm despertara suas paixes. E mais uma coisa.
Como todos os doze antes dele, Trent aceitara o no como resposta; porm, ao contrrio dos outros, no a abandonara por isso. Talvez, apenas talvez, ele achasse que valeria a pena esperar por ela.
Ou ento, a voz da razo lhe dizia, Trent agia assim somente por causa da aposta. Era a casa, que ele tanto queria, e no a ela.
	Ei! Isto  trabalho meu, no se lembra?
Rae virou-se na direo da voz e deparou com Trent retirando mais caixas de papelo vazias do porta-malas do carro.
	Voc j tem muito o que fazer  ela respondeu.
	Est bem. Obrigado, ento.
Assim que Rae terminou de cortar a grama, comeou a chover. Ela tomou um banho e serviu-se de um copo de ch gelado pois, apesar do tempo chuvoso, o calor continuava inclemente. Imaginando o que Trent estaria fazendo, decidiu levar-lhe um copo do refresco. Sabia que ele estava no andar de cima, mas no o encontrou. Decidiu dar uma espiada no sto, e l estava ele, sentado no cho com as pernas estendidas, folheando um livro. Ergueu os olhos para ela e enviou-lhe um sorriso to encantador que Rae sentiu-se flutuar. Sentou-se na beirada da escada e entregou-lhe o refresco.
	Chegou bem na hora  ele disse.  E no estou me referindo ao ch. Preciso de voc.
Rae sentiu o corao acelerar-se.
	Para qu?
	Quero que me ajude a encontrar um bom motivo para no me livrar destes velhos livros.
Ela riu.
	Qualquer motivo que o faa hesitar , provavelmente, um bom motivo.
	Isto  algo que minha av diria. J lhe falei que voc me faz lembrar dela?
Rae engoliu em seco.
	Fico lisonjeada com isso.
Ele sorriu.
	Qualquer outra mulher se ofenderia, se fosse comparada com uma velha e falecida av.
	No conheci sua av, mas sei o quanto voc gostava dela, e isto me lisonjeia. A propsito, se quiser me comparar com seu av, tambm ficarei muito contente. Vocs eram muito chegados.
	Como sabe disto?
	Trent, eu moro aqui, lembra-se? J o observei andando pela casa, recolhendo e guardando as antigas lembranas.
Ele inclinou-se sobre a escada onde ela estava sentada. Estar ali com ela lhe evocava boas recordaes e, subitamente, Trent deu-se conta de que, conforme ela afirmara, aquela casa era muito especial para ele. Por causa dos seus avs, por causa do refgio que significava, quando tentava escapar do relacionamento infeliz de seus pais.
Rae estendeu as mos e comeou a massagear-lhe os ombros. Foi um gesto espontneo, que demonstrava compreenso, mas estranhamente perturbador. Ela retirou as mos, como se o toque fosse capaz de queim-las.
	Acho que seus avs fizeram certo, deixando a casa para voc  disse, com simplicidade.
	Sim, mas aos dezenove anos eu ainda no estava preparado para ser o proprietrio de uma casa. Pensei que a soluo perfeita para o problema seria minha me instalar a butique e cuidar da casa para mim. E foi realmente uma boa soluo, durante anos.
	At voc voltar e descobrir que tudo estava diferente.
At ele voltar e encontrar aquela mulher, a nica capaz de lhe despertar sentimentos .de paixo e proteo, alegremente instalada na casa onde ele sempre recebera aconchego e segurana. Era uma combinao intrigante que o fazia duvidar de suas convices acerca do casamento, das razes, do futuro.
	Voc  realmente feliz aqui, no ?  perguntou, tentando mudar de assunto. Porm, respondeu a prpria pergunta, antes dela.  Mas  claro que sim. Isto fica evidente. Voc  o prottipo da "garota simples, do interior": todos que a conhecem, nesta cidade, gostam de voc e querem proteg-la. Alm disso,  competente em seu trabalho, gosta do que faz. J a vi trabalhando, e percebi que no se limita a cortar os cabelos das pessoas... Voc as escuta, d conselhos, e quando saem daqui elas no somente parecem melhores, mas tambm se sentem melhor.
	s vezes sinto como se morasse nesta cidade desde que nasci  ela disse, pensativa.  Na verdade, fui criada numa cidade pequena. Meu pai era barbeiro e eu estava sempre em volta dele, observando-o trabalhar.
	Deve ter sido divertido.
	E era, mesmo. Meus pais eram pessoas maravilhosas, que j haviam desistido de ter filhos, quando finalmente eu surgi. Ambos haviam passado dos quarenta, e meu nascimento foi quase como um milagre. Sempre houve muito amor, em nossa pequena famlia.
	E voc decidiu ser cabeleireira por causa da profisso do seu pai?
Ela sorriu.
	Pode ser. Mas acho que, na ocasio, eu no me dei conta disto. Tirei minha licena para trabalhar como cabeleireira logo que terminei o colgio e, enquanto frequentei a faculdade, trabalhava para ajudar a pagar meus estudos. Depois que me formei, tentei seguir a carreira em administrao, mas logo percebi que no era o que eu gostava de fazer. Quando se tem um diploma de faculdade, espera-se que voc faa algo mais do que simplesmente cortar os cabelos de outras pessoas.
	Bem, voc faz o que gosta, e  feliz assim  Trent salientou.  Mas foi uma atitude corajosa. E por isso que espero que voc compreenda o quanto significa para mim possuir meu prprio hotel.
Trent lembrou-se da reao dela, na noite em que a levara para conhecer o hotel. Depois do choque inicial, Rae demonstrara um contentamento puro e sem sombra de egosmo, compartilhando sua alegria, sem nenhuma aluso ao fato de que o sonho dele destruiria o dela.
	Tudo o que voc toca se transforma em sucesso, Trent  ela disse.
Tudo, exceto a atrao que sentia por ela. E Trent desejava toc-la o tempo todo, no apenas movido por uma excitao sexual. Queria poder enlaar-lhe os ombros, segurar-lhe as mos, sentir o sabor de seus lbios. Queria poder toc-la bem fundo, em sua amizade, seu bom-humor, sua vulnerabilidade.
	Isso depende de como voc encara o sucesso  ele disse, afinal.
Ela sorriu, um sorriso capaz de dissolver-lhe a alma.
	As coisas funcionam melhor quando a gente as encara com simplicidade.
	A est voc, novamente falando como minha av.
	So os livros dela que voc no est querendo vender?
	Sim. Dela e do meu av.  Os livros continham tantas lembranas que Trent se sentia incapaz de lidar com elas.
	Agora so seus  disse Rae.  E de seus netos.
Trent suspirou.
	Netos... Como meus avs adorariam a ideia de ter bisnetos. E eles adorariam voc, Rae. Meu av certamente diria: "Esta  uma jovem com quem voc pode se acomodar e viver pelo resto da vida. Como eu com sua av."
Sentado ali, naquela tarde chuvosa de junho, ao lado de uma mulher incrvel, Trent quase podia se convencer de que isto seria possvel. Quase.
	Pois creio que seu av no sabia que, em questo de casamento, voc  um "objeto imvel"  Rae comentou, sem esconder um tom de amargura. Depois, levantou-se e comeou a descer as escadas.
	Eu a avisei, desde o incio, que no sou do tipo que se casa, Rae  ele disse, s suas costas.
Ela parou e olhou-o por sobre o ombro. A tristeza que seus olhos exibiam fez com que o corao de Trent se contrasse.
	Sinto muito  disse,  mas. no posso evitar de pensar o que sua av diria sobre isso.
A chuva continuou durante toda a tarde e, com o movimento no salo mais fraco do que o normal, Rae decidiu fechar meia hora mais cedo. Trancou a porta da frente e apagou a luz da varanda.
Quando acabava de arrumar o salo, ouviu o rudo de um carro chegando. Mas nem precisou olhar pela janela, para saber que era Trent.
Momentos depois ele surgiu na porta, parecendo mais atraente do que nunca com a camiseta preta e calas jeans.
	Pelo jeito voc est fechando mais cedo  ele disse, apoiando-se na soleira da porta.  Seria abusar demais, se lhe pedisse para cortar meu cabelo?
Sabendo que no seria capaz de lhe negar nada, ela sorriu, respondendo:
	Com todo prazer, cavalheiro. Vamos para a pia, por favor.
Trent obedeceu e entrou no salo. Rae pegou um protetor de plstico e pediu-lhe que o colocasse nos ombros. Porm, em vez disto, Trent tirou a camiseta.
	Acho mais confortvel assim  falou.
Ela quase engasgou. A capa de plstico caiu ao cho, deslizando de seus dedos inertes. A viso do tronco msculo, bronzeado e forte fez com que seu pulso se acelerasse, e o nico pensamento coerente em sua mente era a convico de que ele com certeza deveria ser ainda melhor quando tocado do que sendo apenas admirado.
Dando-lhe as costas, tentou se refazer enquanto retirava do armrio o shampoo e o creme que iria usar para lavar-lhe os cabelos. Quando se voltou, ele continuava de p, no mesmo lugar.
	Voc no sabe que precisa sentar no lavatrio, para que eu lave seus cabelos?  perguntou, procurando dar um tom de brincadeira  voz.
Trent sentou-se, sem desviar os olhos dos dela. Abriu as longas pernas, numa atitude to masculina que os nervos de Rae vieram  flor da pele. Obrigando os olhos a afastarem-se das coxas musculosas, cobertas pelo brim desbotado das calas jeans, concentrou-se na tarefa de lavar os cabelos dourados. Eram macios, com uma tonalidade que nem mesmo a mais extica das tinturas conseguiria imitar. Rae sabia que muitas mulheres pagariam uma fortuna para obter aquilo que Trent recebera como um presente da natureza.
Como costumava fazer com todos os seus clientes, fossem mulheres ou homens, Rae iniciou examinando a textura dos cabelos, a fim de pensar no melhor corte. Porm, a tarefa mostrou-se bem mais complicada. O simples fato de toc-lo provocava em ambos uma corrente eltrica, poderosa demais para ser ignorada. Aps alguns segundos de massagem, Trent, de olhos fechados, mudou de posio na cadeira e pousou ambas as mos no colo, como se tentasse ocultar o efeito fsico que aquilo lhe provocava. De p, atrs dele, Rae percebeu o exato instante em que isto acontecia, e ergueu os olhos. Havia um espelho bem diante deles, e os olhos de ambos de encontraram. Ela desviou os seus, rapidamente, e abriu a torneira.
	Muito bem  disse, num tom mais profissional que conseguiu emitir , agora pode recostar a cabea.
A gua estava na temperatura perfeita e, tornando a fechar os olhos, Trent sentia os dedos delicados de Rae massagearem-lhe a cabea, num toque que era to relaxante quanto torturante.
Parecia-lhe que Rae demorava-se mais do que o necessrio na lavagem, ensaboando e enxaguando seus cabelos vrias vezes. E deliciou-se em saber que ela gostava de toc-lo, tanto quanto ele adorava ser tocado por ela. Rae o estava seduzindo, mesmo sem ter conscincia. E isto tornava a seduo ainda mais doce e poderosa.
	Pode endireitar-se agora  ela disse, envolvendo-lhe a cabea numa toalha seca e limpa.
Seus seios estavam prximos, quase na altura dos olhos de Trent, e foi com um esforo supremo que ele se controlou para no abra-la imediatamente. Em vez disso, murmurou:
	Faz ideia de como  difcil me manter longe de voc?  Fitou-a, com os olhos nublados de paixo.  Faz ideia de como estou me sentindo agora?
Rae encarou-o, enquanto um ligeiro estremecimento percorria-lhe o corpo. Mas no respondeu. No sabia o que dizer.
Os olhos dele deslizaram, de seu rosto para os seios, e depois voltaram.
	Deixe-me lhe mostrar como me sinto, Rae...
Ela sentiu um arrepio na espinha. Aquele era o momento em que deveria se afastar, dizer no, sair correndo e nunca mais voltar. Mas no fez nada disso.
Trent puxou-a para perto de si, posicionando-a entre as pernas abertas, e passou a acariciar-lhe os braos, lenta e suavemente.
	Diga-me o que est sentindo, Rae  pediu, com voz rouca.
Com os olhos colados nos dele, ela sussurrou:
	Estou sentindo... um arrepio.
Trent tomou-lhe ambas as mos e levou-as aos lbios. Beijou cada um dos dedos, as palmas, e depois as fez descansar em seus ombros. Sempre sem nenhuma pressa e com toda suavidade, fez com que Rae sentasse em seu colo. Com uma das mos, acariciava-lhe as costas, com movimentos lentos e relaxantes.
	E agora, o que sente?
Ela fechou os olhos, emitindo um leve som de prazer.
	Humm... zonza, eu acho...
Trent mudou-a de posio em suas pernas, obrigando-a a encar-lo. Fixou os olhos nos lbios dela e, aproximando-se, umedeceu-os levemente com a prpria lngua. Rae estremeceu de prazer, diante da doura daquela carcia que, em sua opinio, durou muito pouco. Trent tornou a se afastar por um breve instante, antes de colar os lbios sobre os dela para, em seguida, afastar-se novamente.
	O que est sentindo?  perguntou.
	Sinto que... quero que voc me beije.
Ele a beijou, ento, um beijo longo e profundo. Rae entreabriu os lbios, permitindo que sua lngua vida e doce a penetrasse. Trent brincava com ela, provocando-a, excitando-a e, justamente quando Rae pensava que morreria se ele tornasse a se afastar, ele o fez, levando os lbios midos at seu ouvido.
	Ento, o que sente agora?
Ela engoliu em seco, quase no suportando mais a ausncia dele.
	Sinto como se algo estivasse se abrindo, dentro de mim...
Com um gemido abafado, Trent beijou-a novamente, desta
vez com uma paixo quase incontrolvel. Deslizou a mo sob a blusa dela, afastando o suti e espalmando-a sobre o seio trgido. Rae abraou-o com mais fora, desejando-o mais do que tudo no mundo. Sabia que, naquele momento, seria incapaz de dizer a ele como se sentia... teria de lhe mostrar.
Porm, antes mesmo que ela comeasse, Trent interrompeu as carcias, dando-lhe um beijo leve e final. Sentindo-o se afastar, Rae foi envolvida por um manto gelado, uma perda interior.
Seria impossvel descrever o que sentia agora.
Trent levantou-se devagar, ajudando-a a ficar de p. Segurando-a pelos ombros, como se pressentisse que ela mal conseguia se sustentar, disse, baixinho:
	Gostaria que tudo terminasse de modo bem diferente, mas voc j me disse que no  o que quer.
Rae limitou-se a encar-lo, sem nada dizer. Ele prosseguiu:
	Sei que voc me quer, Rae, embora voc prpria no admita. Posso sentir, quando a toco, quando voc me toca. Voc deseja voar em meus braos, e no h vergonha alguma nisso. Deixe-me ensin-la... vamos voar juntos.
Era uma tentao enorme, mas no o suficiente.
	Isto no seria "voar", Trent  ela disse, afinal.  Seria apenas sexo. E sexo s  verdadeiro e profundo se existe um relacionamento sincero entre as pessoas. Um compromisso.
Ele respirou fundo.
	Voc realmente acredita no casamento, no ?
	, sim.  Rae no sabia o que mais poderia dizer para explicar a ele. Trent teria de descobrir sozinho o que ela sabia por intuio: ningum pode voar sem antes ter fincado razes.
	Bem, ento ns temos mesmo um problema. Porque eu no acredito.  isso, fim da histria.
Ela suspirou, sentindo que seu peito se dilacerava.
	Voc no pode ser o mesmo homem com quem convivi nesta casa, um homem que demonstrou carinho de tantas maneiras, que demonstrou preocupar-se no apenas comigo, mas com outras pessoas e com tudo o que faz a vida realmente valer a pena. Este homem saberia como esta histria deve terminar. Eu sinto isso em voc, Trent.
Ele manteve-se em silncio, e Rae continuou:
	E quanto a esta sua insistncia em afirmar que prefere viver sozinho, que no quer ligar-se a ningum, ou que  contra o casamento, deixe-me lhe dizer uma coisa: no acredito em nada disso. Se no sabe quais os verdadeiros motivos que o impedem de ter um compromisso comigo, ento j est na hora de pensar seriamente neles.
Virou-se para sair, mas a voz dele a fez parar.
	Ah, eu sei muito bem quais so estes motivos, nem preciso pensar. E vou lhe dizer: eu preferia morrer a fazer com voc o que meu pai fez com minha me!
Rae voltou-se de frente para ele, falando num tom calmo e preciso:
	Voc no  o seu pai, Trent. No precisa agir como ele.
	Ora, guarde seus conselhos de psicloga para as madames que vm cortar os cabelos  ele retrucou, sem erguer a voz.
	Eu sei que no sou o meu pai. Mas tambm sei que jamais consegui viver muito tempo ao lado de uma mulher, e acredito
que voc merece mais do que isso.
	Nenhuma delas era a mulher certa para voc. Eu sou.
	Eu sei. E esta  mais uma razo para que eu no a magoe.
O que ele pensava estar fazendo agora?, Rae perguntou-se, contendo o impulso de gritar.
	Este  um risco que eu tambm estaria correndo, no acha? 	disse, tentando manter a voz calma.  Mas no tenho medo, Trent, no receio que nosso casamento possa ser sequer parecido com o de seus pais. O deles foi um erro, mas isto no significa que todos sejam iguais. Veja como sua me est feliz agora, com Hal. Pense em seus avs. Todos eles so sua famlia, suas razes...
Ele no a interrompeu, nem retrucou. Imaginando que o estava convencendo, Rae prosseguiu:
	Quase tudo na vida representa um risco, Trent. Mas voc no pode esperar receber as recompensas se no se permitir um pouco de vulnerabilidade. Se casar com voc  um risco, eu estou disposta a me arriscar, totalmente.
	Meu Deus, Rae, ser que no entende o quanto isto  difcil para mim?  justamente porque a amo tanto que no posso me casar com voc!
Os olhos dela espelhavam tudo o que lhe ia na alma, quando respondeu:
	E  porque eu tambm o amo, Trent, que no posso aceitar nada menos do que o casamento.

CAPITULO VIII

No foi de admirar que Rae perdesse a hora de acordar, na manh seguinte.
Depois de suas ltimas palavras a Trent, refugiara-se em seu quarto e, dando vazo a toda tenso acumulada nas ltimas semanas, dormira como uma pedra, esquecida do mundo que ia alm dos limites de sua cama.
Como refgio, de fato fora eficiente, mas apenas temporrio. Rae abriu os olhos para o sol da manh e viu que tinha apenas cinco minutos para se arrumar e abrir o salo, sendo obrigada a enfrentar um sbado de agenda lotada. E, nestes cinco minutos, ainda corria o risco de deparar com Trent no corredor.
Mas isto no aconteceu. Embora ficasse em casa at a tarde, quando seus amigos vieram busc-lo para um jogo de beisebol, Trent ficou fora de seu caminho, para alvio de Rae. No queria uma confrontao, depois de tudo o que acontecera na noite anterior.
Pela primeira vez, desde a inaugurao do Styles, Rae viu-se contando as horas, esperando o momento de encerrar o expediente. Na verdade, contava at os minutos. Quando finalmente fechou a porta atrs da ltima cliente do dia, o telefone tocou. Era Little Ed, convidando-a para reunir-se ao grupo que, depois do jogo, decidira fazer um churrasco. Todas as esposas e filhos estariam presentes, e s ela estava faltando.
 Trent saiu para comprar algumas coisas que precisamos, por isso pensei em ligar para voc  ele continuou, com seu vozeiro.  Por que no vem at aqui?
Rae respirou fundo.
	Obrigada pelo convite, Little Ed, mas estou muito ocupada. Mande lembranas a todos, est bem?
	Tem certeza?  Little Ed insistiu.  Vamos todos sentir sua falta. Especialmente Trent.
No, ela pensou. Entre todos, ele seria o que menos sentiria sua falta. Trent j fizera sua escolha... e no a inclura.
Depois que desligou, comeou a andar pela casa que tanto amava, indo de um cmodo para o outro. No estava preparada para a dor intensa que a assaltava, enquanto sentia a presena de Trent em todos os lugares, como se ele estivesse realmente ali.
Porm, uma coisa estava bem clara em sua mente: no iria permanecer nem um minuto mais naquela casa.
Enquanto arrumava as malas, sentindo a dor invadi-la em ondas, fez algumas promessas a si mesma. Estava encerrando definitivamente aquele captulo de sua vida. Teria de esquecer seus sonhos, voltar a trabalhar como empregada. Voltaria a economizar cada centavo e esperar que algum dia pudesse ter novamente seu prprio salo... algum dia, num futuro distante. Isto se tivesse sorte, muita sorte.
Aquela casa significava tanto para ela... Na verdade, at poucas semanas atrs, quando Trent aparecera pela primeira vez, morar e trabalhar em Emerson era, sem dvida, a coisa mais importante de sua vida.
Mas, agora, o que importava tudo isso? Agora, que sabia que jamais poderia ter o homem a quem amava.
Trent sentia como se tivesse passado todo o tempo do churrasco evitando as perguntas sobre Rae. Ficou at mais tarde com Little Ed, ajudando-o na limpeza, mas quando voltou para casa reparou que o carro de Rae no estava l. Na cozinha, onde normalmente deixavam recados um para o outro, encontrou um bilhete dobrado. Ao abri-lo, uma chave caiu no cho, produzindo um tilintar que pareceu ecoar na casa vazia. No papel, havia apenas uma linha escrita: "A aposta terminou. E voc venceu."
Trent ficou olhando o pedao de papel por alguns minutos, como se esperasse que outras palavras surgissem do nada.
Ento, praguejou alto, amassou o bilhete com raiva e atirou-o na lata de lixo.
Na manh seguinte, Trent estava parado no meio do salo de beleza que Rae arrumara com tanto cuidado, quando ouviu batidas na porta.
Era Maureen e, a julgar pela expresso de desapontamento em seu rosto, j tivera notcias de Rae.
	Acabei de falar com Rae no telefone  ela comeou, depois que foram para a cozinha e Trent serviu-lhe uma xcara de caf.
Fez uma pausa, esperando que o filho dissesse alguma coisa, mas ele continuou em silncio.
	Fiquei surpresa em saber que ela saiu da cidade  Maureen completou.
	Eu tambm fiquei.
	E estranho que ela tenha partido assim, to de repente.
Sempre me pareceu que fosse feliz, aqui. Voc tem ideia do motivo que a fez ir embora?
	No, e no sei por que voc imagina que eu tenha.
Maureen deu-lhe uma amostra de seu raro sarcasmo:
	Tambm no sei. Principalmente pelo fato de voc estar morando na mesma casa que ela, e saindo juntos o tempo todo.
	Ns saamos juntos por causa da aposta  Trent lembrou-a.  Voc  a melhor amiga dela. Seria mais provvel que soubesse onde ela est.
	Pois bem, eu no sei.
	Ento devemos concluir que ela teve seus prprios motivos, e que isto no  da nossa conta.
	Pode ser  Maureen retrucou.  Mas  difcil entender por que ela teria de partir agora, antes de ser obrigada a faz-lo.
Trent tambm pensara nisto. Ao partir, Rae sacrificara tudo o que mais amava: a cidade, o salo de beleza, a casa. Tudo, exceto sua suprema e absoluta crena no amor.
	Talvez ela no quisesse prolongar o inevitvel  Trent sugeriu, embora no acreditasse nas prprias palavras.
Sei que voc acha que acabaria ganhando a aposta, masRae seria a ltima pessoa a abandonar as esperanas. E, mesmo 
se perdesse, ela no iria cortar todos os laos com nossa cidade, como fez. Nem mesmo consegui que ela me dissesse onde est! Maureen recostou na cadeira, olhando firmemente para o filho. E ele reconheceu aquele olhar: era o mesmo que ela lhe enviava, quando criana. Um olhar de preocupao.
	Quero deixar claro que no tenho inteno de introme ter-me em seus assuntos com Rae  Maureen prosseguiu, sem desviar os olhos.  Mas quando soube que eu viria aqui, ela me pediu para lhe dar um recado.
Trent manteve a expresso impassvel, embora seu corao desse um salto.
	Sim?
	Rae pediu-me para lhe dizer que Little Ed e Mason viro mais tarde para remover os equipamentos mais pesados do salo, e...  Maureen calou-se, observando a reao de Trent.
 O que foi, meu filho?
	Nada. O que mais ela disse?
	Pediu para voc entregar a Little Ed a chave que ela deixou, caso no esteja em casa.  tudo.
Sim, evidentemente isto era tudo. O que mais ela iria dizer? Que ele estava certo, e ela errada? Que havia mudado de ideia a respeito de tudo em que acreditava?
	Ento, voc vai estar em casa, Trent?  Maureen perguntou.
Devagar, ele soltou a respirao, embora sequer percebesse que a estava contendo.
	Sim, me, estarei bem aqui.
Quando Little Ed chegou,  tarde, Trent sequer precisou olhar para o amigo para adivinhar o que o esperava. Mal atravessou a soleira da porta, Little Ed foi logo perguntando, sem prembulos:
	O que diabos voc fez a ela?
Trent nem piscou.
	Nada. Alis, isto no  da sua conta.
Little Ed encarou-o de frente.
	Eu sabia que voc iria acabar magoando-a. E devia que brar-lhe a cara!
	Voc poderia tentar  Trent retrucou, num tom de aviso.
Naquele instante, Mason apareceu na porta e, ao mesmo tempo, Little Ed e Trent deram um passo para trs.
	Puxa, espero que Rae esteja bem  disse Mason, com a testa franzida de preocupao.  Ningum sabe para onde ela foi?
	Eu, no  Trent falou.
	Nem eu  Little Ed admitiu.  Mas, onde quer que ela esteja, provavelmente estar melhor do que aqui.  Olhou para Trent, acusador.
	Ela foi embora porque quis.
	Ser, mesmo?  Mason perguntou.  Afinal, tir-la desta casa sempre foi seu objetivo, desde o incio.
Agora, Trent se preparou para enfrentar o outro amigo.
	Por acaso est insinuando que eu a mandei embora?
	De maneira alguma  Mason retrucou, diplomaticamente.  Mas imaginei que, se a aposta no estivesse funcionando, vocs dois acabariam chegando a um outro tipo de acordo, quanto a casa.
Trent tentou controlar a irritao.
	Escutem, ela simplesmente decidiu ir embora. No entendo porque todo mundo est to preocupado com isso.
	Talvez porque todos sabemos que ela estava apaixonada por voc  Mason declarou, com simplicidade.
	E por que diabos todos pensam isto?
	Talvez porque Rae seja uma pessoa to sensvel e carinhosa que algo assim estaria perfeitamente visvel.
	Olhem, eu nunca a enganei. Desde o princpio deixei bem claro, inclusive na frente de vocs, que no sou o tipo de sujeito que se compromete.
	Est me parecendo um pouco defensivo, Trent...  Little Ed resmungou, por entre os dentes.
	Voc j pensou em falar com ela?  Mason sugeriu. 
	Seria um pouco difcil falar com algum que desapareceu sem deixar rastros  Trent lembrou-o, num tom cido.  Agora, que tal deixarmos esta conversa de lado e comearmos a carregar estas coisas para a caminhonete?
Quando terminaram, um Little Ed ainda hostil fechou a tampa da carroceria e puxou Trent para o lado.
	Escute, Trent, ns j passamos por um bocado de coisas
juntos  disse.  Quero que saiba que no estou zangado apenas porque acho que voc magoou Rae, mas tambm por estar aqui, vendo meu melhor amigo jogar para o alto a melhor coisa que aconteceu na vida dele. E, pior de tudo, voc  to idiota que nem percebe isto. Trent cerrou os dentes.
	No vou ficar me repetindo, Little Ed. Ela foi embora, no eu.
	E  claro que voc no ir rastejar, no ?  Little Ed balanou a cabea, a raiva sendo substituda pela tristeza. As pessoas dizem que eu sou teimoso, mas ningum supera voc, Trent. Acho que posso entender porque Rae no conseguiu viver com voc.  Subiu na caminhonete e juntou, por cima do ombro:  S me resta torcer para que voc consiga viver sem ela.
Mas ele conseguiria, sim, Trent pensou. O verdadeiro inferno fora viver com ela. Uma mulher bonita e desejvel, convivendo na mesma casa... no era de admirar que seus sentimentos o haviam enganado. O que sentira era apenas desejo, excitao pela presena constante de uma garota jovem e atraente. E, agora, nada mais o impedia de prosseguir com os planos de vender a casa. A aposta estava encerrada e ele podia seguir em frente.
Ao voltar para casa, evitou deliberadamente olhar para o cmodo onde ficava o salo de beleza. Porm, no pde evitar de pensar como tudo parecia frio e vazio, sem o riso de Rae, sem sua presena confortadora, sem seus sonhos.
Rae passou a noite de sbado num hotel barato. Depois dos telefonemas para Maureen e Little Ed, no domingo de manh, encerrara todos os arranjos para sua mudana. Little Ed se encarregaria de guardar os equipamentos do Styles, at que ela pudesse encontrar um comprador.
Em seguida, entrou em contato com seu antigo patro, Vic-tor, que lamentou o fato de ela ter fechado o salo mas ficou contente em t-la de volta, trabalhando para ele. Rae passou a tarde de domingo arrumando suas coisas no quarto que alugara, no andar de cima do salo de Victor.
Era um quarto pequeno e modesto, mas prximo do trabalho e com um preo que ela poderia pagar.
Na tera-feira, quando entrou no salo para seu primeiro dia de trabalho, Rae colou um sorriso no rosto. No importava como se sentia por dentro, tinha a obrigao de ser agradvel e simptica, pois isto fazia parte de sua profisso. Ademais, esta seria sua vida, dali em diante, e estava determinada a ser feliz, como sempre fizera no passado.
Porm, no passado, ela no sabia como era estar apaixonada por Trent. Na verdade, embora fizesse de tudo para esconder, vivia mergulhada num profundo estado de infelicidade. Mas mesmo quando chorava de saudade, quando pensava em Trent, seu corao lhe dizia que havia feito a nica coisa que poderia fazer.
Duas semanas depois, numa manh de segunda-feira, Trent foi para Boston, a fim de assinar o contrato de compra e venda da casa, com Lee Ann, e finalizar a oferta de compra do hotel. Chegou adiantado ao encontro pois, como em tantas outras noites depois da partida de Rae, dormira muito mal e acordara cedo demais. Agora, sendo obrigado a esperar, andava de um lado para outro na calada, diante do hotel que estava prestes a ser seu.
Aos poucos, tudo em sua vida se encaixava e ele teria o que sempre sonhara. Durante o tempo em que trabalhara para alcanar aquele momento, havia pensado muitas vezes em como se sentiria, quando finalmente chegasse ao seu objetivo. Estaria eufrico, orgulhoso, satisfeito?
Porm, no sentia nada disso, agora. Apenas o mesmo vazio, a mesma desesperana que revolvia-se dentro dele durante as ltimas semanas.
De incio, imaginara que este efeito perturbador fosse causado pelo fato de ter voltado  sua cidade natal. Ao voltar para casa, tivera de se deparar com o fato de que realmente possua razes, e muito bem fincadas, nas figuras de seus amigos, de sua me, de seus parentes. Jamais havia imaginado que retornar aos prazeres simples da cidade do interior poderia reduzir com tanta intensidade a seduo que sempre sentira pela vida cosmopolita. Mesmo assim, isto no foi o bastante para faz-lo mudar de ideia quanto ao seu futuro.
Virou-se para admirar mais uma vez o local onde seu futuro se desenrolaria. Entretanto, aps um momento, sua ateno foi desviada para a calada, onde uma garota caminhava em sua direo. Bonita, muito bem vestida, carregando uma pasta de executiva, mantinha a cabea alta e um ar de perfeita segurana. A mulher entrou no edifcio ao lado do hotel, fazendo-o pensar que provavelmente seriam vizinhos, em breve, e, talvez, algo mais...
Mas, ao invs de antecipao, ou excitao, foi invadido por uma sbita repugnncia diante daquela ideia. E no foi difcil entender por qu: Rae era a nica mulher que realmente o interessava, e este fato tornava-se mais claro e evidente a cada dia que passava.
E ela o amava. Ela o amava... pensou, diminuindo a velocidade dos passos na calada. Ser amado por uma mulher como Rae no era algo que um homem pudesse descartar com tanta facilidade. E um compromisso com ela tambm iria alm dos votos de casamento. O homem amado por Rae teria de lhe entregar seu corpo, seu corao, sua alma, completamente e sem reservas.
Trent havia se convencido que no queria um comprometimento srio com Rae porque tinha receio de mago-la, de feri-la. Mas, ao rejeitar seu amor, fora exatamente isto que fizera. E era por isso que vivia mergulhado num inferno, desde o dia em que ela partira.
 Sr. Colton! Est adiantado.
Trent cumprimentou o homem que viera ao seu encontro e esperou at que ele abrisse a porta do edifcio e o fizesse entrar. O homem estava sorrindo, mas Trent sabia que o sorriso no duraria muito tempo.
Depois que retirou a oferta de compra do hotel, foi encontrar-se com Lee Ann e comunicou-lhe que no iria mais vender a casa. Lee Ann tambm no ficou muito satisfeita, mas ciente de que nada o faria mudar de ideia.
E era verdade. Trent agia com rapidez e preciso, s que agora ia numa direo totalmente oposta. E surpreendeu-se ao perceber como era fcil mudar seus planos. No que o fato de possuir um hotel no fosse importante para ele, mas, naquele momento, nada superava a importncia de Rae em sua vida.
E ele nem sabia onde ela estava.
Bem, j era mais do que tempo de comear a procurar, pensou enquanto dirigia pela estrada, deixando Boston para trs.
Depois que o salo fechou, na quarta-feira, Rae foi at o telefone pblico na esquina de sua rua, a fim de ligar para Little Ed. No havia informado a ningum sobre seu paradeiro, pois conhecia muito bem seus amigos: sabendo que ela jamais aceitaria caridade, todos acabariam aparecendo ali para que ela lhes arrumasse ou cortasse os cabelos. E ela no podia permitir que isto acontecesse, embora sentisse saudade de todos e estivesse desesperada para ouvir uma voz amiga e conhecida.
	Al?  o vozeiro de Little Ed ressoou do outro lado da linha.
	Oi, Little Ed.  Rae.
	Rae! J estava na hora de ligar! Tudo bem com voc?
	Sim, tudo. Tudo est... bem. S queria... saber notcias de todos. Como esto as coisas, por a?
	Ah, na mesma, exceto que sentimos muito sua falta. E melhor voltar logo, antes que todo mundo nesta cidade fique com os cabelos pelos joelhos.
Ela riu, e era to bom rir de verdade...
. Estou falando srio, Rae  Little Ed prosseguiu.  Por que no volta? Ns a ajudaremos a encontrar outro ponto para o salo. O que acha daquele galpo atrs da oficina? As pessoas podem ir ao posto trocar o leo do carro e, enquanto esperam, fazem um bom corte de cabelos.
Rae sentiu o sorriso comear a tremer. Ele era to querido, to gentil. Todos eles eram.
Little Ed prosseguiu tagarelando, contando as novidades sobre os amigos, at que, em certo momento, baixou um pouco a voz:
	O que diabos aquele patife fez com voc, Rae? Sabia que h dois dias ele anda pela cidade, fazendo mil perguntas e tentando descobrir onde voc est? Ei, espere... ele acabou de chegar.
O silncio abafado que se seguiu fez com que o corao de Rae disparasse. Trent estava ao lado de Little Ed e, no instante seguinte, do outro lado da linha.
	Rae?
	Ol, Trent.  Ela agarrou o fone com toda fora, sentindo um tremor invadi-la. Como a voz dele podia afet-la daquela maneira?
A resposta era muito simples: ela ainda o amava.
	Como vai, Rae? Onde voc est? J fiz de tudo para entrar em contato com voc, mas ningum nesta cidade me diz nada.
	Ningum sabe onde estou, Trent. Fui eu quem quis assim.
- Bem, pois eu no quero. Preciso tornar a v-la.
	No.  Rae no sabia o que faria, se o visse novamente. Apenas ouvir-lhe a voz j era uma tortura insuportvel.  Preciso recomear minha vida, Trent.  melhor deixar tudo como est.
	Temos de conversar.
	Eu no tenho mais nada a dizer.
	Ento, escute.
Ela engoliu em seco.
	Preciso desligar, Trent.
	Se no quer dizer onde est, pelo menos prometa ligar para mim  ele pediu.
	No.  Rae no mentiria, nem o deixaria esperando.  Desejo-lhe tudo de bom, Trent. Adeus.
Com as mos trmulas, desligou o telefone.
Trent ouviu o clique suave e bateu o fone com fora. No poderia culp-la por no querer falar com ele, Rae tinha todo o direito de estar zangada, magoada. E duvidava que qualquer coisa que dissesse iria fazer alguma diferena.
A tarde de sexta-feira era sempre frentica, no salo de Vitor. Porm, ainda sem uma clientela fixa, Rae ocupava-se das pessoas que iam chegando sem horrio marcado.
Aproveitando um breve intervalo, saiu para comer um sanduche. Meia hora depois, quando voltou, no havia nenhuma cliente  sua espera, portanto comeou a limpar o balco diante do espelho.
	Quero um corte de cabelos. Com Rae.
A voz conhecida a fez girar de frente para a porta. Trent a encontrara. Estava parado na recepo, olhando para ela com evidente emoo. E com uma aparncia de quem no dormia direito havia dias.
	Rae? Ah, est se referindo a Rachel, no ?  claro, senhor,
por aqui.  Victor guiou-o at a cadeira onde ela trabalhava.
Trent sentou-se.
	Quer dizer que, aqui, voc  Rachel?
Ela encontrou-lhe os olhos no espelho.
	Voc quer mesmo cortar os cabelos?  perguntou.
	Faz tempo que estou precisando. Mas, da ltima vez, no fui alm da lavagem com shampoo.
Rae ruborizou com a lembrana daquela noite, e pousou as mos nas costas da cadeira, tentando impedi-las de tremer.
	Como descobriu que eu estava aqui?  indagou.
	Bem, digamos que procurei em todos os sales de beleza das redondezas, em trs cidades diferentes.
Rae sentiu um n na garganta, prestes a explodir. Tentou afastar-se, mas Trent segurou-a pelos braos, virando-a delicadamente para si.
	E, se no a tivesse encontrado hoje, continuaria procurando  disse, fitando-a profundamente, como se quisesse de monstrar tudo o que lhe passava pela alma.
Rae deu um passo para trs, e ele a soltou.
	No posso cortar seu cabelo, Trent  disse, com voz trmula.
	Tudo bem. Afinal, no foi exatamente este o motivo que me trouxe aqui. Quero que venha comigo, Rae.
	Voc quer conversar?
	No. H algo que desejo lhe mostrar.
-  No posso sair agora. Meu horrio termina daqui a duas horas.
Trent levantou da cadeira e foi falar com Victor.
	Quantos cortes de cabelo Rae ainda faria, nas prximas duas horas?  perguntou.
Victor encolheu os ombros.
	Isto depende de quantas clientes aparecessem.
	Qual seria o mximo?
	Trs.
Trent tirou a carteira e deixou um pequeno mao de notas sobre o balco. Victor arregalou os olhos e virou-se para Rae.
	Voc tem o resto da tarde livre, Rachel. E amanh, tambm.
	No posso acreditar numa coisa destas!  ela exclamou, olhando para Trent com uma expresso atnita.  Voc est pagando para ficar comigo?
	No  ele retrucou.  Estou apenas lhe proporcionando uma tarde livre. O que voc faz com ela,  problema seu.  Virou-se para os presentes que, quela altura observavam a cena atentamente, e sorriu.  Boa tarde, para todos.  E saiu.
Rae permaneceu imvel por um instante, antes de segui-lo para fora. As clientes e seus colegas bateram palmas, rindo e encorajando-a.
Trent estava sentado no carro, que estacionara bem diante do salo. A capota estava baixada e ele olhava para a frente, com ar srio. Rae abriu a porta e sentou.
Ele virou-se para olha-la.
	Tem certeza de que  assim que quer passar sua tarde de folga?
Ela limpou a garganta.
	Quais so seus planos?
Trent encolheu os ombros.
	Pensei em dar uma volta de carro.
	S isso, mesmo?
Ele assentiu.
	J lhe disse que quero lhe mostrar uma coisa.
Ele no estava insistindo, mas apenas pedindo. Seria difcil dizer no.
	Est bem.
Mas no foi nada difcil reconhecer o caminho que tomavam. Aos poucos, a paisagem to conhecida abria-se diante de Rae, e ela no pde evitar um sorriso.
	Por acaso est me raptando e levando-me de volta para Emerson?  perguntou.
	No. Mas no posso negar que havia pensado nisso  ele respondeu, sorrindo tambm. Depois, acrescentou, srio: Rae, voc  quem manda, aqui. Se quiser mudar de ideia e voltar, eu a levarei. Basta dizer, e eu a levarei para onde quiser, quando quiser.
Ela permaneceu em silncio. A alguns quilmetros de Emerson, Trent pegou uma estrada, de onde avistaram uma grande casa branca, por entre as rvores.
	Era isso que voc queria me mostrar?
	Sim.
Ciente de que ele a observava, Rae olhou atentamente para a casa. Mesmo sob a luz do entardecer, podia ver que era magnfica, embora necessitando de consertos e cuidados.
	Parece-me conhecida...  comentou, em dvida.
	Meu bisav contratou o mesmo arquiteto que a construiu para fazer o projeto da casa em Emerson  Trent explicou.
	Esta casa tambm pertencia  sua famlia?
Trent fez que sim.
	Em seu testamento, meu bisav deixou a casa em Emerson para meu av, e esta para seu filho mais velho. Meu tio-av Jacob.
	E ele ainda est vivo?
	Est vivo e ainda  o dono da casa. Soube disto atravs da minha prima Gina, lembra-se dela? Bem, o fato  que o procurei, ns conversamos e decidimos fazer uma sociedade.
	Sociedade?
Ele assentiu.
	Este  o lugar perfeito para um hotel de campo. Ficaperto da cidade, embora longe o bastante para ser tranquilo.
E iremos tirar partido do desenvolvimento previsto na pesquisa que Lee Ann encomendou.
Rae estava atnita.
	E quanto ao seu hotel? Aquele em Boston?
	Alguns sonhos ficam melhores se a gente tem com quem compartilh-los  disse Trent, fitando-a profundamente. Este hotel ser um negcio de famlia. Gina ir trabalhar comigo, tambm.  Fez uma pausa e juntou:  Alm disso, este lugar fica mais perto de Emerson.
	Mas pensei que voc iria morar em seu apartamento, em Boston.
	Vou vender o apartamento, e usar o dinheiro nas reformas desta casa.
Ele no iria mais para Boston, Rae pensava. Iria ficar em Emerson.
Ento... no vai vender a casa?
No posso vender aquela casa, Rae.
Num impulso, Rae segurou-lhe a mo e apertou-a.
_ Fico to contente com isso, Trent! E sei que seus avs tambm ficariam. Voc vai voltar para sua casa, para suas razes Eu sabia que voc no teria coragem de vend-la.
	Sim, tudo isso  verdade. Mas eu disse que nao posso vender a casa.
Ela encarou-o, confusa.
	O que quer dizer com isso?
Trent tomou-lhe a mo, afagando-a distraidamente.
	Bem, ns concordamos que voc teria a opo de compr-la depois de dois anos, portanto no poderei vend-la para mais ningum.
Ela franziu a testa.
	Trent, isto s aconteceria se eu ganhasse a aposta.
	E voc vai ganhar... se disser sim.
	O qu?  ela murmurou, sentindo um frio percorrer-lhe a espinha.	,
Trent inclinou-se e abraou-a, beijando-a com tanto ardor e ternura que no deixava dvidas quanto ao significado de suas palavras.
	Sei que deveria ter um anel de noivado para lhe entregar, uma lua cheia no cu, champanhe e tudo mais... Mas no pude mais esperar.  Tornou a beij-la, antes de prosseguir:  Amo voc, Rae. Vou am-la e proteg-la pelo resto de nossas vidas se voc casar comigo. Ento, qual  a resposta?
Ela o abraou, sentindo que poderia explodir de felicidade.
	Minha resposta  sim!
	Sabe o que mais quero no mundo? Viver naquela casa, criar razes profundas e fortes, junto com voc.  Trent aconchegou-a em seus braos.  E quanto a voc, querida, o que deseja?	.
Rae sequer precisava pensar na resposta. E deixou que o corao falasse por ela.
	Eu? Eu estou pronta para voar!

FIM
